quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O ATRASO


Ao olhar no despertador percebeu que estava terrivelmente atrasado. “Droga” - pensou ele levantando-se rapidamente da cama – “Se eu não for demitido hoje, não vou nunca mais”.
Em poucos minutos já estava na rua, quase correndo, procurando chegar no trabalho o mínimo atrasado possível. Era a terceira vez na semana que chegaria atrasado ao trabalho, o pior, é que seu chefe fora bem direto da ultima vez: “Da próxima, rua. Entendeu? Rua?”
Não via nada á sua frente, somente pensava em qual desculpa daria ao chefe.
“Que merda de despertador! Que merda!” – pensava. “Agora não tem desculpa, é rua”.
Conforme andava, mais ficava ansioso. Nervoso. Desesperado. Não podia perder o emprego, não agora. Mas tinha que concordar com o chefe, estava muito relaxado nos últimos dias, mas, não tinha culpa. Sua jornada dupla estava acabando com ele. Era trabalho e faculdade. Faculdade e trabalho. A correria era grande, e o tempo curto. Muito curto.
Andava cansado. Exausto. Ainda mais que estava em semana de prova, o que era pior.
Por isso, ele quase corria, olhando no relógio de tempos em tempos procurando ao menos estar errado quanto à hora. Mas, infelizmente, não estava errado, e seu atraso era real. E a perda do seu emprego... A perda do seu emprego, idem.
Depois de muito andar começou a perceber algo diferente. De repente deu-se conta que o movimento estava anormal. A rua, sempre movimentada estava vazia. Não havia movimentação das pessoas atrasadas para o trabalho, tampouco, de veículos. Na verdade a rua estava morta, sem movimentação alguma, sem contar que as primeiras lojas do centro, que àquela hora já deveriam estar abertas ainda estavam fechadas.
Olhou novamente no relógio. Uma, duas, três vezes.
“Não é possível será que meu relógio parou? Acabou a pilha? Não! Não! O ponteiro está funcionando perfeitamente, olha os segundos sendo marcados religiosamente”.
Olhou à sua volta, mas tudo estava tão anormal. Tão parado. Até parecia um...
Foi aí que percebeu o que realmente estava acontecendo, o problema não era o seu relógio, ou seu despertador, então um alivio tomou conta do sí.
Afinal, era domingo.
De repente sentiu-se tranqüilo. Feliz. Renovado. Seu emprego estava garantido. Pelo menos até segunda feira.


Marc Souza

VERDADEIRO AMIGO


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Verdadeiros heróis, verdadeiros seres humanos


Dizem que vivemos em um mundo ruim. Em um mundo de pessoas egoístas, individualistas, pessoas, que só pensam em si próprios e, em mais ninguém. Alegam que as guerras, a fome, a desigualdade social, a violência a corrupção, são o que imperam na a personalidade humana. Uma personalidade perversa, má, doente que é capaz de tudo para alcançar um objetivo.
Eu até acredito nesta última parte, afinal, não tenho dúvidas de que o ser humano é capaz de fazer qualquer coisa para alcançar o que almeja, seja coisa boa, ou ruim. Pelos motivos considerados justos, a ele, o ser humano faz “das tripas, coração” e vai até a última conseqüência até conseguir o que quer.
No entanto, não podemos ser injustos, o ser humano faz mais o bem, que o mal. É certo que a maldade, muitas vezes causa um efeito maior, uma comoção maior, e que faz parecer que somente a maldade prevalece, mas, isso não é verdade. Com certeza não. E só observarmos as atitudes dos seres humanos diante de situações limites. Nestas situações o instinto solidário aflora, então, por mais iminente que a morte pareça a ele, ele não se acovarda e luta com todas as forças para ajudar seu semelhante, mesmo, que isso custe a sua vida. E, mesmo quem esta distante destas situações limites, se solidariza fazendo todo o possível para ajudar, seja com dinheiro, alimento, roupas e tudo o que for possível. Até se organizam para isso, criando grandes movimentos solidários.

O homem cria guerras, mata, estupra, rouba, cria situações que causam muita dor e sofrimento, mas, a maioria, a grande maioria vive para fazer o bem, sem distinção. Muitas vezes acreditamos, principalmente nos momentos de fraqueza, que o mal é sempre maior, mas, não é.
É só olharmos a nossa volta que veremos grandes, verdadeiros heróis, que vivem para transformar o nosso mundo num lugar melhor para se viver. Heróis anônimos solitários, solidários. Mas, Heróis. Verdadeiros heróis. Verdadeiros seres HUMANOS.

Marc Souza

ESPERA


PURO AMOR


domingo, 20 de outubro de 2013

AMOR



Era linda.
Lembro-me muito bem, como se fosse hoje, afinal, como poderia me esquecer, foi amor à primeira vista.
            Naquele fatídico dia, me apaixonei.
            Loucamente.
            Perdidamente.
            Era um domingo à tarde.
            Eu tinha, apenas, dezesseis anos.
            De manhã eu não havia feito nada, de tarde resolvi sair, dar uma volta pela cidade.     Então, ao sair da minha casa, tive um choque. Naquele momento a vi pela primeira vez, maravilhosa.
            Foi um momento mágico.
            Não consigo descrever em palavras o que senti.
Só sei que foi bom.
De repente, como em um passe de mágica descobri o amor.
            De repente, fui acometido por um desejo louco de tê-la em meus braços, um desejo incontrolável de tê-la comigo para sempre. De tê-la comigo por toda a minha vida.

            Esse desejo foi muito mais forte do que eu. Tentei, mas, não consegui me controlar, não consegui me conter. Então, em um momento de infinita coragem e súbita ousadia, fui até ela, e, segurando-a fortemente, sentei-me em seu banco, agarrei-me em seu guidom e saí para passear pela cidade, muitíssimo feliz, pela bicicleta que eu acabara de ganhar.

TAMANHO?


HOMENAGEM AO MEU PAI


            Foi um homem simples. Quando criança todo final de tarde ao chegar do trabalho ele se sentava em sua cadeira de balanço. Não demonstrava cansaço, ou mau-humor. Naquele momento se sentia um rei. E era um rei. O rei de sua casa, do seu lar. Do lar que construiu com amor. Naquele momento contava suas histórias. Muitas histórias. Algumas ele jurava serem verdadeiras, outras, nada dizia, deixava que nós decidíssemos a veracidade delas.
            Após o jantar, ele se sentava na varanda e ligava seu velho rádio de pilha. Ficava horas a ouvi-lo e dando-nos conselhos, a mim e meus irmãos, sobre a vida. Queria que nos tornássemos grandes homens. Não no sentindo financeiro da palavra, mas, grandes homens em caráter, em determinação. Grandes, como ele.
            Ele nunca teve dinheiro, mas se considerava uma pessoa rica. Privilegiada por Deus, pois, sempre teve tudo o que necessitava. Uma bela família, filhos e esposa e amigos, muitos amigos, verdadeiros amigos.
            Ele vivia sorrindo, mesmo nos momento difíceis. Mesmo nas adversidades que a vida lhe impunha. Com sua maneira simples de viver, nos ensinou o valor da amizade.
            Da sinceridade.
            Da humildade.
            Da simplicidade.
            Da honestidade.
            Da lealdade.
            Da solidariedade.
            Da generosidade.
            Da felicidade.
            Do seu jeito simples, nos mostrou o caminho do bem.
            Mostrou-nos, o caminho do amor.
            No alto da sua sabedoria ele sempre nos dizia: “Não importa o que temos e sim o que somos”.
            Foi um sábio. Um herói. Um vencedor.
            Meu exemplo de pessoa,
            Meu exemplo de pai.

Marc Souza



O ZÉ E O BURRO N´ÁGUA

           

- Ué Zé, você chegou quietinho, não disse nada, aconteceu alguma coisa? Você parece que está triste.
            - É impressão sua.
            - Não sei não. Não sei não.
            - Sei não o quê? O que você esta querendo dizer com isso?
            - É que eu te conheço, e sei que você deve estar com algum problema.
            - Não é nada não.
            - Vamos lá Zé, eu sou seu amigo. Pode se abrir comigo.
            - O quê???
            - Zé, vamos lá...
            - Você me respeite! Você acha que eu sou o quê? Eu não costumo fazer isso não. Não sou dessas coisas não. Eu sou é macho.
            - Calma, Zé! Calma!
            - Calma! Calma! Se tá me estranhando?
            - Santa ignorância em Zé...
            - Nem vem com essa conversinha que esta santa não existe.
            - Eu sei, eu sei. Estou falando para você deixar de ser ignorante. Não estou sendo mal educado com você, tampouco estou pondo em dúvida a sua masculinidade.
            - Eu sei.
            - Eu estou dizendo que você pode falar sobre qualquer coisa comigo, afinal, sou seu amigo, e talvez possa te ajudar. Sei que está triste. Posso ver no seu semblante isto.
            - No meu o quê?
            - No seu rosto. No seu olhar. Na sua cara. Entendeu agora?
            - Ah! Deixa prá lá.
            - De jeito nenhum. Vamos Zé, vamos conversar.
            - ...
            - Zé???
            - Tá bom! Tá bom! Você não vai desistir mesmo, né?
            - Não, não vou. Amigos são para essas coisas. Como sou seu amigo...
            - Sabe o que é? É que minha incursão pelo meio empresarial, acabou. Pra sempre. Infelizmente a TransZé, faliu.
            - Que pena! Desculpe! Eu... Eu... Sinto muito. Muito mesmo.
            - Qué vê eu.
            - Mas, caro amigo, eu sei que é muito difícil esta situação que você esta vivendo, mas, o que você não pode fazer é desistir. Entregar os pontos. Agora é bola pra frente.
            - Bola pra frente? Que bola pra frente? Você tá louco? Eu não tinha um time de futebol não. Você esta me confundindo com alguém? Despois você diz que é meu amigo. Minha empresa de transportes faliu! Não meu time de futebol, aliás, para seu governo eu sequer sei jogar futebol. Olha, era por isso que eu não queria falar nada, sabe? Eu estou na pior. Triste. Deprimido. E você me vem com brincadeirinha. Tirando uma com a minha cara. Ainda se diz meu amigo...
            - Calma, Zé! Calma! Você está muito nervoso.
            - Claro que estou. Como você acha que eu deveria estar? Feliz?
            - Zé, entenda uma coisa, quando eu disse “agora é bola pra frente”e “entregar os pontos” é tudo força de expressão, ou seja, trocando em miúdos, eu quero dizer para você não desanimar, não desistir, olhar para frente e seguir a sua vida com Fé, entendeu? Desculpe eu não quis te ofender, em momento algum. Você é um cara honesto, trabalhador. Com certeza você irá vencer.
            - Tá bom, tá bom, eu já entendi.
            - Mas, que mal lhe pergunte, porque a sua tão promissora empresa foi à bancarrota?
            - Banca... Banca... O quê?
            - Por que a sua empresa faliu?
            - É que o burro fugiu!
            - O quê? O burro fugiu?
            - Não foi isso que eu disse?
            - Mas Zé, como você deixou que isso acontecesse? Você não amarrou o bicho não?
            - Deixei, claro que deixei, o problema foi a mula. A culpa foi da mula.
            - Mula? Que mula?
            - Da mula. A mula foi sair com o burro e acabou dando com o burro n’agua, então, ele fugiu.
            - Eu não estou entendendo é nada. Você nem me disse que tinha comprado uma mula também.
            - Mas eu não comprei.
            - Então vamos lá, explique o que aconteceu. Acalme-se e explique, eu estou querendo entender.
            - Sabe o que é, é que minha muié foi dar uma volta no burro, só que aquela mula não sabe nem andar a pé, então, o desgraçado do burro desembestou pela rua da represa e, para terminar, caíram, os dois dentro d’agua. Como minha muié não é nenhuma sereia, o burro fugiu enquanto a mula estava morrendo afogada. E junto com ela você sabe o quê morreu também...

Marc Souza


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

TRANSZÉ


- Chegou cedo hoje, heim Zé? Você não foi trabalhar não?
- Eu não! Sabe de uma coisa, pedi demissão.
- Pediu demissão? Você ficou louco Zé? As coisas por aí estão difíceis, não está fácil encontrar emprego por aí não.
- POR UM ACASO EU TÔ PEDINDO ALGUMA COISA?
- Ô Zé, desculpa aí. Eu não queria te ofender não. Eu disse isso sem maldade. Você sabe eu sou seu amigo. Eu não lhe desejo mal não.
- Eu sei... Eu sei... É que eu cansei dessa minha vida de assessor.
- Assessor?
- É! Assessor de pedreiro.
- Assessor de pedreiro? Essa é boa, você quer dizer servente de pedreiro?
- Mas você é igonorante mesmo, né?
- Eu, ignorante?
- É isso mesmo. Tempos modernos amigo. Tempos modernos. Não se usa mais servente, agora, com a modernidade é assessor.
- Tá bom o senhor assessor, você pediu demissão e vai fazer o que agora da sua vida?
- Agora vou ser empresário.
- Empresário?
- É, empresário.
- Sei...
- Agora eu vou investir no ramo dos transportes.
- Investir? Em transportes?
- É! Entregas de encomendas.
- Entregas de encomendas?
- CÊ VIROU PAPAGAIO AGORA? FICA ME REMEDANO.
- Não! Não! Desculpe! É que eu estou pensando alto.
- ENTÃO CÊ FALA PROS SEUS PENSAMENTOS AÍ PARAR DE ME REPETIR.
- Tá bom! Tá bom! Então Zé, como vai ser esta empresa? Fale-me sobre ela, como vai se chamar, enfim, conte-me tudo.
- Ela vai se chamar TRANSZÉ, muito mais rápido do que ir a pé...
- Ah! Muito bem. Tem até uma frasezinha para fazer uma propaganda. Legal!
- Você vai vê. Uma empresa totalmente ecológica. Sustentável.
- Sustentável!
- NÃO COMEÇA...
- Desculpe!
- De baixo custo. Emissão de poluente totalmente orgânico e reutilizável. Uma maravilha!
- E como vai ser? Quero dizer onde você vai arrumar dinheiro para este empreendimento? Você tem algum investidor que resolveu investir na sua ideia?
- Não precisou não. A empresa vai ser 100% minha. Montada com recursos próprios.
- Que recursos são esses Zé? Até onde eu sei você não tem nem onde cair morto.
- ÔPA! DESSE JEITO VOCÊS ESTÁ ME OFENDENDO. VÊ SE ME RESPEITA! PARA SEU GOVERNO, MORTO A GENTE CAI EM QUALQUER LUGAR, NÃO PRECISA TER DINHEIRO NÃO.
- Hoje esta difícil mater um diálogo com você, heim Zé. Santa ignorância. Eu só estou te perguntando, por que para uma empresa dessas precisa-se de muito dinheiro. Precisa de muito investimento.
- Até parece... Olha já tá tudo certo. Olha CE vai vê, eu vô me transformar num grande empresário. Já to até imaginando a placa na frente da empresa: TRANSZÉ, uma empresa do Zé.
- Então tá, né!
- Eu sei que você não acredita. Mas é só aguardá. Aguarde e confire.
- Você deve saber o que está fazendo.
- Se sei.Já dei o passo inicial, por enquanto eu vou ficar na informalidade, mas, logo, logo... É só esperar. Esperar para ver.
- E nesse passo inicial que você deu, o que você comprou? Que veículo você já adquiriu? Quer um conselho? Não compre veículo muito velho não, senão você vai perder muito dinheiro com conserto, oficina, se sabe. Vem cá o veículo que você comprou esta aqui perto? Outra coisa, eu não sabia que você era habilitado. Zé você tem carteira de habilitação, né?
- CÊ TÁ LOUCO? QUANTA PERGUNTA. Ele não tá velho não, tem uns dois anos de uso só.
- Então está novinho. Cadê ele? Quero dizer, cadê o veículo que você comprou? Cadê seu novo instrumento de trabalho? Agora, adeus pás, enxadas, martelos. Agora é vida nova, heim Zé?
- Olha ele ali. Paradinho. Quietinho.
- Onde?
- Ali!
- Desculpe, mas...
- CÊ TÁ CEGO, HOME?
- Claro que não, é que... Espera aí... A única coisa que eu estou vendo é... Um burro e uma carro...
- Então? Não é uma maravilha. Ecológicamente correto, totalmente sustentável. Poluente 100% orgânico. Não utiliza combustível fóssil. Não contribui para a diminuição da camada de ozone. Baixissimo investimento inicial. Seu combustível é encontrado em qualquer lote vazio da cidade, e, a sua alimentação contribui para a limpeza da mesma. Como eu disse uma maravilha.
- Quero dizer, um burro não, eu estou vendo é dois burros e uma carroça...

 Marc Souza



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

OUTUBRO MÊS DO ROSÁRIO


UMA HISTÓRIA DE AMOR



Era linda.
Lembro-me muito bem, como se fosse hoje, afinal, como poderia me esquecer, foi amor à primeira vista.
            Naquele fatídico dia, me apaixonei.
            Loucamente.
            Perdidamente.
            Era um domingo à tarde.
            Eu tinha, apenas, dezesseis anos.
           De manhã eu não havia feito nada, de tarde resolvi sair, dar uma volta pela cidade.     Então, ao sair da minha casa, tive um choque. Naquele momento a vi pela primeira vez, maravilhosa.
           Foi um momento mágico.
           Não consigo descrever em palavras o que senti.
           Só sei que foi bom.
           De repente, como em um passe de mágica descobri o amor.
         De repente, fui acometido por um desejo louco de tê-la em meus braços, um desejo incontrolável de tê-la comigo para sempre. De tê-la comigo por toda a minha vida.
          Esse desejo foi muito mais forte do que eu. Tentei, mas, não consegui me controlar, não consegui me conter. Então, em um momento de infinita coragem e súbita ousadia, fui até ela, e, segurando-a fortemente, sentei-me em seu banco, agarrei-me em seu guidom e saí para passear pela cidade, muitíssimo feliz, pela bicicleta que eu acabara de ganhar.

Marc Souza

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

UM CONTO



Todos os dias era a mesma coisa. Sentada no ponto de ônibus ela vivia a imaginar. Imaginava uma vida melhor. Uma vida feliz, longe dos problemas e das dificuldades que vivia diariamente. Imaginava viver um amor. Um grande amor. Sentada no banco ficava a imaginar quando um príncipe encantado chegaria em seu cavalo branco lindo, e, lhe arrebatasse para viver um lindo conto de amor. Um verdadeiro conto de fadas.
Mas todos os dias era a mesma coisa. Logo o ônibus pararia e ela voltava a vida normal. Tomaria o ônibus lotado onde pareceria mais uma sardinha enlatada, andaria por uma hora até chegar ao trabalho e, no final da tarde retornaria à sua casa, sozinha, sem um amor. Sem viv’alma para conversar. Para desabafar. Para amar.
Como não poderia ser diferente, naquele dia chegou dez minutos antes do ônibus. Mas, algo aconteceu, algo diferente, pois, antes que ela se sentasse um belo carro parou ao seu lado e um rapaz, fez-lhe um sinal. Ela ignorou-o, mas, ele insistiu. De repente desceu do carro, e, sem dizer uma palavra sequer, abraçou-a e beijou-a, apaixonadamente.
- Todos os dias... Todos os dias passo por aqui e a vejo – disse ele - hoje, tomei coragem, para dizer-lhe: Sou completamente apaixonado por ti.  Eu te amo. – diz olhando em seus olhos.
- Mas... Mas eu nem lhe conheço... Eu... Eu nem sei...
- Eu te amo! Eu te amo! – grita ele chamando a atenção de todos que estão no local. Então ele se ajoelha. – Oh, meu amor! Abro agora o meu coração. Eu te amo! És a mulher da minha vida! A escolhida por meu coração, para amar por toda a vida. Por isso agora dispo-me de todo o meu ser e lhe peço e lhe imploro, venha comigo. Venha comigo e farei de você a mulher mais feliz do mundo.
Vendo tão bela declaração ela da adeus a razão. Esquece o bom senso e se entrega ao amor. Então ambos saem em disparada com o carro para viver um grande amor, enquanto no ponto de ônibus todos batem palmas entusiasmadamente por presenciarem tão belo momento.
A felicidade toma conta de si. De repente ela se esquece de todos os seus problemas, de todas as suas dificuldades, e dá as costas para a sua vida. Para viver uma vida nova. Uma vida de esperança. De amor. Sente-se feliz. Pela primeira vez na vida, sente viva. Isso mesmo sente-se viva. Sente o sangue escorrer pelas veias, chega a ouvir seus batimentos cardíacos.
Feliz. Uma felicidade contagiante. Uma felicidade verdadeira.
O carro está a toda velocidade pelas ruas da cidade, então um carro cruza à sua frente, que freia e buzina. Ela se assusta, e fecha os olhos, de repente, toda a sua vida passa como um filme. 
Silêncio total.
De repente outra buzinada.
Então ela abre os olhos e nota algo diferente. Não há carro, não há acidente. Só o ônibus lotado que parado à sua frente buzina.
- Ei, sua maluca, você não vai ao trabalho hoje não? – grita o motorista.
E tudo volta ao normal.

Marc Souza

 


terça-feira, 15 de outubro de 2013

O MEDROSO



Quando eu era adolescente eu morava em um bairro bem afastado da cidade, mais ou menos três, quatro, kilômetros, sendo que, destes, havia uns oitocentos metros sem casas e qualquer tipo de iluminação. Era um caminho de terra e mato.
Num belo dia eu e meus amigos fomos para a cidade a noite, chegando lá, encontrei-me com outros amigos.
De repente, de madrugada, percebi que meus amigos, aqueles que moravam no meu bairro, já haviam ido embora.
Naquele momento, estremeci.
Afinal, eu nunca havia ido embora sozinho à noite, além do mais eu sempre fora uma pessoa muito medrosa.
Minhas pernas começaram a tremer, meus braços também.
Pensamentos ruins começaram a povoar a minha mente.
Minha imaginação e que imaginação começou a trabalhar a todo vapor.
Que medo!
Que desespero!
Fantasmas, monstros, lobisomens, personagens dos mais insólitos da literatura de terror começaram a me fazer companhia.
Procurei, procurei, mas não encontrei uma alma viva sequer para me acompanhar.
Não tinha jeito, eu teria que enfrentar meus fantasmas, meus medos.
Então resolvi ir embora, afinal, se aguardasse o amanhecer minha mãe me matava.
Sem alternativa, pus-me a caminhar.
No começo foi tudo bem, apesar de ser madrugada a rua ainda tinham um pequeno movimento, mas, as luzes foram rareando, o movimento idem e, mais rápido do que esperava cheguei à pior parte.
Era uma escuridão só.
Travei.
Um gelo percorreu meu corpo.
Um frio subia pela minha espinha.
Meu coração começou a bater mais forte e rápido.
O desespero tomou conta de mim.
Minha respiração ficou tão ofegante ao ponto de me faltar o ar.
Mas, eu não tinha opções, então num arroubo de coragem e desespero, principalmente desespero, comecei a caminhar rapidamente pela escuridão, quase correndo.
O medo que eu sentia era tamanho que nem olhava para os lados ou para frente somente rezava para que o caminho terminasse o quanto antes.
Foi aí que algo estranho aconteceu, já no meio do caminho uma imagem fantasmagórica surge a minha frente.
Quase enfartei, senti meu coração chegar à boca, o frio que eu sentia quase me congelou.
Meus piores pensamentos vieram à tona, meus maiores medos surgiram com uma força devastadora.
Corri.
Corri feito louco.
Corri tanto que nem percebi quando a escuridão se dissipou.
Corri tanto que só parei ao chegar a minha casa.
Trancando a porta senti-me protegido, calmo.
Nesta noite dormi um sono agitado, pesadelos rondaram a minha mente.
Acordei cansado e ainda assombrado pelo o que acontecera, mas, como estava atrasado para o trabalho, nem me dei ao luxo de pensar sobre o ocorrido, além do mais, eu teria de passar novamente pelo local.
Era dia, mesmo assim, me encontrava um tanto assombrado e inseguro, mas, como, novamente não havia outra alternativa lá fui eu, quase urinando nas calças, então, qual foi a minha surpresa ao chegar no local exato dos fatos, deparei-me com um cavalo branco deitado, o cavalo ao me ver levantou-se saindo lateralmente do caminho para que eu passasse, neste momento não me contive e caí na gargalhada.


Marc Souza

O INÍCIO (TUDO COMEÇOU ASSIM) OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS!?

  
-           Com licença, sr. Presidente! Posso entrar?
-           Adiantaria dizer não? Você já entrou.
-           Desculpe...Aqui estão os relatórios que o senhor me pediu.
-           Obrigado! Boas ou más notícias?
-           Infelizmente, senhor as notícias não são muito boas não, os nossos índices econômicos estão caindo desde a sua posse, segundo especialistas estamos a beira de um colapso econômico, e...
-           E?
      Silêncio.
-           E?- grita
-        Nossos colaboradores estão começando a reclamar, há boatos até de deixarem de nos apoiar e apoiarem o outro candidato nas próximas eleições.
-           Mais isso não pode ser possível, precisamos muito do apoio deles para a próxima eleição.
-           Bem senhor, mesmo com o apoio deles acho que será muito difícil a reeleição
-           Porque você está me dizendo isso? O que realmente está acontecendo?
-          Um repórter descobriu as fraudes que fizemos nos últimos relatórios sobre o crescimento da nossa economia e vai divulga-las em uma revista de circulação nacional. Dizem que é em uma revista de grande porte.
-           Como dizem?
-           É que não sabemos qual revista será publicada, só há boatos.
-           É uma fraude...Ele está é querendo dinheiro.
-        Temos cópias da matéria, já oferecemos uma grande quantia em dinheiro para ele e ele recusou, mandou avisar que nada compra o seu caráter e que vai acabar conosco.
-     Faça uma devassa na vida dele, descubra tudo, se já usou drogas, se já teve  experiência  homossexual, descubra todas as pessoas com quem já transou,se trai  sua esposa. Descubra tudo, vamos desacredita-lo, acabar com a vida dele.
-           Desculpe senhor, mas já fizemos isso, e, o cara é limpo. Cem porcento honesto.
-           Faça alguma coisa, não sei o quê, mas faça, é para isso que eu te pago não é mesmo.
-           É...Senhor sabe a área de livre comércio que idealizamos?
-       É claro. Dará um grande impulso para a nossa economia, ganharemos muito dinheiro com a sua criação.
-           As negociações estão emperradas.
-        O que? Hoje você está de brincadeira, você sabia que se estivéssemos na idade média você já estaria morto? É muita notícia ruim para um dia só. Vamos, diga o que está acontecendo desta vez.
-      Sabe aquele país medíocre localizado ao sul do nosso continente? Está alegando que só nós ganharemos com a criação da área comercial e não quer assinar os contratos, principalmente depois que aumentamos as taxas de importação do suco de laranja e do aço.
-         Também eles querem o quê? Eu tenho que defender o que é meu e não o que é dos outros.
-         Infelizmente para nós eles estão defendendo o que é deles, e, sem a aprovação da área vai ser quase impossível melhorar nossa situação econômica.
-       Agora quem que vai ter que tirar-nos dessa enrascada serei eu. Acho que vou ter que te demitir. Acho não tenho certeza.
-       O senhor tem alguma idéia?
-       Quem tem que ter idéias aqui é você, não é verdade? Mas vou quebrar o seu galho, tenho uma ótima idéia.
-         Graças a Deus! E qual é?
-         Vamos fazer uma guerra.
-         O quê? Uma guerra? Sinto dizer senhor mas uma guerra não é...
-        Uma guerra sim- grita – Porque não? O que é mais importante que uma guerra para preencher todo o noticiário e desviar a atenção de todos. Com a guerra, mesmo que esse repórtezinho de merda consiga publicar sua matéria, o povo não vai nem prestar atenção nela pois terá coisas mais importantes para se preocupar.
-       Uma guerra, contra quem? Contra o quê? Não podemos gastar mais em busca daquele terrorista.Aliás não temos dinheiro para fazer guerra alguma.
-     Vamos fazer uma guerra lucrativa, muito lucrativa. Nós vamos invadir um desses países grandes produtores de petróleo do oriente, a gente tira o presidente deles e coloca pessoas boas no seu lugar, boas para nós é claro, assim teremos o petróleo em nossas mãos, teremos o ouro negro meu amigo e é claro o poder.
-         Senhor, para uma guerra teremos que obter um aval da ONU, como conseguiremos?
-        Fácil. Faremos uma guerra contra o mal, em favor da justiça. Não podemos deixar uma pessoa insana governar um país produzindo morte e miséria entre seus habitantes. Nós não podemos deixar um país produzir mísseis nucleares de longo alcance, nem armas químicas e biológicas que podem por em risco a população mundial. Temos que zelar pela paz mundial, afinal, somos os guardiães da justiça, não é verdade?.
-           É.
-          Forjaremos provas contra eles e a ONU nos dará o aval para atacar. Não é uma boa idéia? Em uma única e rápida ação teremos tudo em nossas mãos. Quem se preocupará com aquela matéria idiota com uma guerra em andamento? Depois da nossa vitória teremos o controle do petróleo e todos os países do mundo aos nossos pés, inclusive esse país ao sul do nosso continente que acha que é grande e pode atrapalhar os nossos planos, todos ficarão impressionados com o nosso poder bélico. Teremos tudo o que quisermos, absolutamente tudo.
-           E a opinião pública? O que faremos para...
-        A principio não nos apoiará, mas depois de terminada a guerra, nos tratarão como heróis. Afinal livraremos o mundo do mal. Nosso país será o grande defensor da paz e da justiça. Bonito, não? Entraremos para a história.
-           E as vidas que se perderão?
-           Bem amigo, os fins justificam os meios ,não é verdade.

Marc Souza


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Não basta ser o melhor


É interessante como muitas vezes nos julgamos pessoas superiores às outras. Somos os melhores, dizemos a quem quiser, ou não, ouvir.
Com esse julgamento que temos de nós mesmos, passamos a, também, nos consideramos injustiçados pela vida. Pela sociedade. Pelos outros. Afinal, se somos tão bom, por que não somos o chefe? Por que não temos as melhores oportunidades?
“Não sei o que viram nele, afinal, sou muito melhor?” “Acho que meus superiores têm ciúme do meu conhecimento e tem medo de me dar uma chance e eu tomar o lugar deles. Só pode ser isso. Sou muito mais preparado do que todos daquela sala”. “Por que ele e não eu?”.
Quantas vezes nos pegamos fazendo  esses tipos de perguntas no nosso dia a dia? Quem nunca se pegou pensando ou dizendo frases deste tipo?
Agora, se somos tão bons assim,  por que nunca temos uma oportunidade?
Por que o “sol” não nos sorri também?
Será que o mundo é mesmo injusto e nem sempre os melhores tem as melhores oportunidades?
Desculpe, mas, todos nós nos consideramos bom em algo. Os melhores. Talvez até sejamos mesmo. O problema é que, quando passamos a nos achar superiores aos outros, pecamos.
Muitas vezes o fato de eu ser “melhor” que o outro me traz acomodação, por isso deixamos de apresentar o nosso melhor. A nossa vaidade toma conta de nós, e, começamos a achar que qualquer coisa que fizermos até mesmo uma grande “m...” é suficiente para ofuscar o brilho das pessoas que estão à nossa volta. E, é aí é que mora o perigo.
Enquanto relaxamos em nossas atitudes diante das pessoas, tanto no lado profissional, quanto no lado pessoal, os outros, aqueles considerados por nós como inferiores, não baixam a guarda e, sabendo de suas limitações procuram a excelência, estudam, fazem cursos de aperfeiçoamento.
Quanto a nós, achamos que não precisamos de nada, pois, somos o exemplo de capacidade e competência, por isso não estamos nem aí, passamos a nos tornar relapsos diante de certas situações e, arrogantes, achando-nos os donos de todo o conhecimento. Bem aí vem o resultado, ou melhor, a tragédia, pois, simplesmente “perdemos a parada”.
“Injustiça” feita ficamos, indignados. Revoltados. Sentimo-nos injustiçados. Culpamos tudo e todos. Menos nós, é claro. Não conseguimos enxergar que nós mesmos nos sabotamos, pois, deixamos que a vaidade tomasse conta de nós, das nossas ações, dos nossos atos.
Por isso, digo, podemos ser bons, aliás, podemos ser notáveis, mas nunca, nunca devemos deixar que vaidade tome conta de nós.
Afinal, não basta acreditar que se é o melhor, tem é que se provar que o é.


Marc Souza