sábado, 9 de novembro de 2013

AS APARÊNCIAS

 AS APARÊNCIAS


O ônibus está estupidamente lotado. Maria, a contragosto, entra, não gosta de andar de ônibus a essa hora do dia. No entanto é preciso, pois, sua filha a espera, e o assunto a tratarem é muito, muito importante, e não pode esperar.
O transporte público é um caos, a superlotação, as más condições dos veículos o horário irregular, além de outras mazelas, deixa todos os usuários irritadiços. Maria, como não poderia deixar de ser, esta tremendamente irritada, se já não bastasse a cada parada do ônibus, subir mais passageiros do que os que desceram, ela ainda, tem que aturar alguns homens se esfregando nela de forma maliciosa, pois, sem lugar para sentar ela tem que viajar de pé.
A cada parada Maria fecha os olhos para não ver a quantidade de pessoas que sobem no ônibus. Ela, aos poucos, vai entrando em desespero. Na ultima parada Maria observa que, dois rapazes negros, acabaram de entrar.
Ao perceber a entrada dos rapazes, Maria, sente um frio na espinha. De repente é tomada por uma grande sensação de insegurança e por um medo quase que incontrolável. Instintivamente protege sua bolsa, segurando-a fortemente junto a seu corpo.
O ônibus volta a andar, mas, Maria, fica incomodada com a presença dos novos passageiros e não tira os olhos deles, nem por um segundo. O medo aumenta, uma angustia incontrolável começa a tomar conta do seu coração. Baixinho ela começa a rezar. Em sua mente, várias situações começam a ganhar vida e, em todas, os novos passageiros são parte atuante.
“E se eles me pegarem de refém” - pensa.
“Meu Deus, e se eu for assassinada por um deles em um momento de nervosismo.”
“Não que eu seja racista, mas, olha a cara deles, parecem que estão esperando o momento certo para darem o bote e nos roubarem. Minha bolsa, tenho que proteger a minha bolsa”.
“Olha a cara deles, olha a cara de maldade que eles tem”.
“E agora, o que fazer?”
“Quantas pessoas saem de casa, pegam um ônibus e não conseguem chegar ao seu destino? Quantas?”
Maria não consegue tirar os olhos dos dois rapazes, tampouco, afastar os maus pensamentos.
Os pontos de ônibus vão passando, passando. O numero de passageiros aos poucos vão diminuindo e nada de os rapazes descerem.
Maria entra em desespero.
“Será que eu tenho razão?”
“Será que eles vão aprontar algo conosco?”
“Eles devem estar esperando aumentar o dinheiro no caixa do cobrador.”
Falta, ainda, duas paradas para Maria chegar ao seu destino, mas, não agüenta a pressão que sua mente esta fazendo contra si, angustiada, quando o ônibus para, ela empurra as pessoas que estão no corredor e, como uma louca, desce correndo, sob o olhar atônito dos passageiros.
Fora do ônibus aos poucos Maria vai recobrando a razão, aos poucos vai se acalmando.
“Estou salva agora”.
Sua respiração volta ao normal. A angustia desaparece.
“Desci um pouco longe, mas, não há nada que uma boa caminhada não resolva, dentro de alguns minutos chegarei à casa de Helena.”
“Graças a Deus desci antes que aqueles negrinhos fizessem o serviço”.
“Tolos, idiotas, acharam que iam me pegar.”
“Se ferraram”.
Maria caminha tranquilamente pela rua, sente-se muito segura.
De repente ela sente em suas costas um objeto que, pontiagudo, a machuca, antes de pensar no que está acontecendo uma voz lhe diz de maneira firme:
- Por favor, a senhora poderia me passar sua bolsa?
- O quê?
- A bolsa minha senhora, a senhora quer que eu grite para todo mundo ouvir que isto é um assalto?
“Filhos de uma mãe”.
“Só pode ser vingança, daqueles negrinhos”.
“Só porque eu descobri o plano deles, eles estão aqui para se vingar”.
“Queriam roubar o ônibus, mas, como não deu certo, eles me seguem e me roubam”.
“Safados”.
- Olhe aqui dona, vamos passar logo essa porra dessa bolsa, antes que eu perca a paciência e te fure, sua vaca.
- Toma – diz Maria entregando a bolsa, sem olhar para traz.
- Valeu dona! Um bom dia para a senhora, ta ligada.
De posse da bolsa, o assaltante vai embora, caminhando pela rua, lentamente, como se nada tivesse acontecido.
Maria, tremendo de medo, se vira, e observa o rapaz caminhando calmamente, carregando sua bolsa, o rapaz, branco de estatura média, bem apessoado, traja roupas, rigorosamente limpas, de grife. Um rapaz acima de qualquer suspeita.
Nervosa, Maria põe-se a andar no sentido contrário, pois, precisa chegar logo à casa da filha, no entanto, não consegue esconder sua tristeza, e principalmente, sua vergonha.
Enquanto isso, no ônibus.
- Que mulher esquisita né João?
- É, bem que o pai falo que as pessoas da cidade grande eram muito esquisitas, Zé.
- Deve ser a poluição, que deixam as pessoas assim.
- É deve ser.
O ônibus pára.
- Chegamo.
- Vamos descer então, antes que a gente se perca nessa selva de pedra.
- Sabe Zé, o pai disse, também, que aqui, as pessoas eram muito racistas, mas por enquanto, eu não me apercebi de nada não, e você?
           - Também, não João. Também não.

Marc Souza


2 comentários:

  1. Esse e o verdadeiro.preconceito....

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  2. Marcio Luiz de Souza10 de novembro de 2013 11:27

    Com certeza é o preconceito... Preconceito que vive dentro de muitos...

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