segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

VIDAS MORTAS



A única gota d’água que aquela terra recebera nos últimos meses, foram as lágrimas dos seus olhos. Lágrimas de tristeza, de sofrimento. Lagrimas de não sei o quê.  Seus últimos anos foram marcados por muito trabalho. Muito trabalhou, muito plantou, mas, a chuva não veio e as lágrimas que jorraram dos seus olhos, apesar de não terem sido poucas, não foram suficientes para molhar a terra dura e seca do lugar.  
Ao olhar em volta, teve a certeza, de que, mais uma vez, tudo estava perdido. Não houve uma semente sequer, que não sucumbira diante da estiagem. Nada brotou, nada cresceu, nada floresceu. Tudo simplesmente se perdeu, inclusive a esperança, que apesar de ser molhada com o suor do seu trabalho e com as lágrimas de esperança, também não brotou, sucumbindo à seca.
Ajoelhado sobre a terra dura e seca, como se fosse fazer uma oração, chora. Chora a falta de água, a falta de comida, a falta de esperança. Chora a falta de fé. Fé que se foi junto com a esperança de dias melhores. Com a esperança de um futuro melhor para ele, e para a sua família.
À sua volta só há tristeza e desolação, não há qualquer resquício de vida, até os carcarás foram embora, voaram para longe em busca de comida. Neste momento tenta se lembrar de quando vira pela última vez um teiú, ou um pássaro qualquer, mas, não consegue, sabe  que, os que não morreram de fome ou sede, também deixaram aquele local para tentarem sobreviver.
De onde ele está, consegue ver os filhos brincando, alheios a tudo, brincando diante da casa de taipa, coberta de folhas de palmeiras. Brincam, com o cachorro abelha, um vira-lata tão magro, mais tão magro, que sequer, agüenta com o peso da própria cabeça, e, com seus brinquedos improvisados, feitos de madeira, barro e restos de quaisquer coisas que pudessem encontrar. Estão felizes. Correm, gritam, sorriem. Os meninos, três, estão magros e barrigudos. Suas roupas velhas se resumem há, um calção e uma camisa, todos muito castigados pelo tempo, velhos que só, mais velhos até que eles mesmos. Mas, estão felizes, afinal, nada conhecem além da miséria em que se encontram.
Quanto a ele, apesar de ter nascido e crescido naquele lugar, esta cansado. Cansado de viver. Cansado de sonhar.
Sonhar com a chuva no momento certo. Sonhar com uma verde e bela plantação. Sonhar com fartura na mesa. Sonhar com uma vida melhor, vida esta, que  nunca veio. Só ficou nos seus melhores sonhos. Aqueles do passado, de quando ainda conseguia sonhar. Para ele, tudo se perdeu. Os sonhos, a esperança, a vida. Não há mais razão para lutar, não ali. Não mais.
Por muito tempo viveu de sonho e reza. E como rezou. Toda a noite rezava, implorava para que a chuva viesse no tempo certo, trazendo consigo força e saúde para sua lavoura. Que viesse trazer água para seus animais, água para a sua família. Água limpa e saudável. Mas, apesar de tanta reza a chuva não veio. Nada molhou, nada brotou, nada viveu, tudo se perdeu.
Sabia que a falta da chuva, não era culpa de Deus ou da sua falta de fé, afinal, apesar de todas as dificuldades que passou comida à mesa nunca faltou, a Providencia Divina sempre se fez presente, mas, agora, estava muito cansado, muito triste, muito infeliz. Não queria mais esperar. Não queria mais perder. Não aceitava mais perder. Não queria mais viver na miséria. Queria mudar sua vida, não só a sua, mais a vida de toda sua família.
Por isso tomara uma decisão, no entanto, o que poderia lhe trazer esperanças, naquele momento trazia-lhe somente medo e insegurança. Sabia das agruras em que vivia, mas as incertezas do futuro o amedrontavam. Ajoelhado na terra firme e seca, olhou para o céu e viu somente o sol brilhando forte, onipotente, não viu uma nuvem sequer, nenhuma brisa soprou o seu rosto, sentiu somente um mormaço, um calor quase que insuportável. Um calor que, destruía aos poucos sua vida, um calor que destruiu por completo suas esperanças. Por isso, iria embora. Deixaria todo aquele sofrimento para trás. Deixaria aquela vida cheia de privações e provações.
Deixaria, para sempre seu lar. O único lugar que conhecera como lar em toda a sua vida. Onde estavam as suas raízes, a sua vida. Mas sabia também, que, se demorasse muito tempo ali, suas raízes ficariam fracas e secas, e também sucumbiriam diante da seca. Como sua plantação, como seus animais.
As incertezas quanto ao seu futuro o incomodavam. Várias perguntas sem respostas povoavam a sua mente, deixando-o muito apreensivo.
Como seria o seu futuro? O que o esperava nessa nova etapa de sua vida? Mais sofrimentos? Mais privações? Mais provações?
A verdade, era que ele queria somente uma coisa: Dar uma vida melhor para seus filhos, para sua esposa e para si mesmo. E, esta mudança poderia ser o inicio de tudo. Poderia!? Talvez!? Nada era certo. O presente, o futuro. Nada. Mas, ele tinha que começar de alguma maneira. Força e vontade de trabalhar nunca lhe faltaram. Nunca.
Vendo os restos dos animais mortos pela seca que estavam à sua volta, mortos pela falta de comida, velhas carcaças espalhadas pela terra sem vida, transformando o local em um cemitério aberto no meio do nada. Vendo as arvores secas, sem vida e restos secos da vegetação que completavam a triste paisagem, rezou. Pediu proteção a Deus, ao “Padim Cícero” e, chorou novamente. Chorou por aqueles que já haviam partido daquele lugar, por aqueles que ficariam ali a sofrer, a rezar, a plantar sonhos e esperanças, sabendo que nunca hão de colher qualquer um dos dois. Chorou por ele e por sua família. Chorou por sua vida.
Depois, apoiou as mãos no chão e beijou aquela terra morta, demonstrando todo seu amor por ela. Se despedindo para sempre daquele chão feio e ao mesmo tempo, para ele, tão belo.
Ao levantar viu sua mulher, que, na porta de casa, observava a tudo, em um silêncio impassível. Ao perceber que ele a vira, ela entrou. Ele sabia que ela também sofria com todas as incertezas e privações em que viviam, mas nada dizia, nunca, simplesmente aceitava “seu destino”, em silêncio.
Olhou à sua volta pela última vez procurando absorver cada detalhe, cada sensação daquele lugar, mesmo as mais desagradáveis, para que não as esquecesse jamais, pois, sabia que dificilmente voltaria ali e que logo, tudo aquilo não passaria de lembranças. Somente lembranças. Lembranças do que foi. Lembranças do que poderia ter sido.
Após esta “cerimônia”, foi até seus filhos, beijou-os um a um e os abraçou juntos, tornando-se um só corpo, um só coração, uma só vida. Sua mulher foi até eles participando do grande e terno abraço. Agora, não eram mais cinco pessoas, cinco vidas, mas, um só corpo, unidos pelo amor mutuo. Depois disso, entraram todos na casa simples, onde, após se lavarem na água suja e barrenta, fizeram a última refeição antes da partida: caldo de feijão e farinha mandioca. De barriga cheia, rezaram com fé, e foram dormir, afinal, antes mesmo de o sol nascer, partiriam dali, para sempre, em busca de uma vida nova, em busca de novas oportunidades, encontrando, talvez, a tão sonhada felicidade.

Marc Souza



2 comentários:

  1. E a gente nunca sabe se aqui será melhor do que lá para eles... belo conto!

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  2. Texto lindo, maravilhoso...

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