segunda-feira, 14 de abril de 2014

AMÉLIA




Não havia musica que Amélia mais odiava que: “Ai que saudade da Amélia”, não podia acreditar que existisse uma mulher como tal. E, o que era pior, não suportava as brincadeiras a que era obrigada a ouvir por causa do seu nome. Até por que ela era o oposto da Amélia da música. Ela era independente, lutava pelo o que acredita, por isso não escondia sua insatisfação quando alguém chegava próximo a si e começava a cantar: “Aquilo que era mulher...”.
Amélia acreditava na igualdade entre o homem e a mulher. Ou melhor, acreditava que o homem devia fazer de tudo para agradar a mulher. Não conseguia entender, nem aceitar uma música como aquela, musica que, para ela, em momento algum enaltecia a mulher por suas lutas, e sim, por sua acomodação, aceitação, subserviência ao homem. E isso era inadmissível. “Essa história de passar fome e achar bonito não ter o que comer. De mulher não ter vaidade. Não existe” – dizia.
Por isso vivia a criticar as mulheres que abdicavam da sua vida pelo marido, pelo casamento. “A mulher não é simplesmente uma máquina de fazer filhos e limpar a casa.” – afirmava.
Bonita, bem sucedida, Amélia namorara poucas vezes, com trinta e sete anos já estava ficando para titia, bem, ficando não já era titia. Todas as suas amigas de infância já haviam se casado.
Mas, apesar de mostrar-se casca dura, Amélia, era sim, uma mulher romântica. E como todas as mulheres românticas, sonhava com a chegada de seu príncipe encantado, que, montado em seu cavalo branco, a arrebataria e a levasse para seu castelo onde viveriam felizes para sempre. Um homem que viveria para lhe fazer feliz.  Que não gostasse de futebol, sem amigos e sem ex-namoradas. Que a trataria como uma princesa, ou melhor, como uma rainha.
“Este homem que você deseja, infelizmente, não existe” – diziam suas amigas. “Ou é o bar, ou o futebol, os homens nunca vêem sozinhos. Sem contar com aqueles que vêm com os dois”.
“Por isso que estou sozinha” – respondia – “Eu que não vou ficar em casa passando roupa enquanto o meu marido sai para jogar futebol ou beber cerveja com amigos. Não sou empregada de ninguém. No meu lar, serei a rainha. Vocês que são umas bobas, idiotas”.
Mas todas sabiam que tudo o que ela dizia era da boca para fora, em seu intimo Amélia se sentia triste e sozinha.
Um dia Amélia apareceu com uma grande noticia: Estava apaixonada, pois, havia encontrado o homem da sua vida, o seu príncipe encantado.
A princípio ninguém acreditou nela. Pensaram até em mandar interna-lá. Ela havia ficado louca. Afinal, achar alguém para chamar de príncipe, ainda mais para ela chamá-lo, com todas as suas exigências e manias era quase que um milagre. Ou loucura. Não que não acreditassem em milagres, mas, preferiram acreditar em loucura. Amélia estava louca.
Aos poucos o que parecia um delírio foi se tornando realidade. Amélia definitivamente encontrara o amor. E para provar isso, marcou um jantar com toda a família e amigos.
Todas estavam ansiosas para ver e conhecer seu príncipe encantado. Algumas diziam que ele deveria estar à beira da morte, outras que ele, deveria ser terrivelmente feio. Teve até quem achara que ele era gay e ela teria um casamento de aparências.
No dia do jantar todas estavam lá e preparadas para rirem de Amélia e ver seu príncipe da forma que ele realmente seria: Um sapo.
Más línguas. Más amigas. Invejosas. Incomodadas com a felicidade alheia. Não queriam acreditar que Amélia havia tirado a sorte grande e que, diferentemente delas havia encontrado um príncipe de verdade.
 Ele não chegou montado em um cavalo branco, mas, a sua beleza causou uma grande surpresa. A inveja começou, quando viram a sua postura e a sua educação. O “sapo” era um príncipe. Perfeito! O homem que Amélia sempre sonhara. O homem que elas acreditaram não existir. Ou melhor, existir somente na imaginação de Amélia.
Amélia tirara a sorte grande. Enfim, seria a rainha do seu lar, como sempre sonhara. Naquele dia, nenhuma de suas amigas conseguiu dormir, tamanha inveja que sentiam.
Dias depois; o casamento. Amélia, enfim, se tornara a rainha que tanto sonhara.

“Que inveja”. – pensavam as amigas – “Que inveja”.
Aquele fora o dia mais feliz de Amélia até então. E o dia mais difícil para suas amigas. O dia em que tiveram que aceitar que Amélia sempre tivera razão. Sempre estivera certa e elas... E elas... Corroíam-se por dentro...

Dias depois, querendo presenciar a vida de rainha que Amélia estaria vivendo, suas amigas se reuniram e foram visitá-la. Ansiosas para verem a Rainha que ela se tornara. Foram sem avisar, afinal era sábado à tarde, e quem sai aos sábados à tarde? Com certeza Amélia estaria em seu castelo com seu rei.
Então, aproveitando-se que seus “príncipes” saíram para jogar futebol foram elas, visitar a “rainha Amélia”.
Ao chegar à casa de Amélia, a surpresa: não havia castelo, não havia rainha. O rei havia saído fora jogar futebol com os amigos enquanto a “rainha” passava uma enorme pilha de roupas. E, o que era pior, Amélia em nada se parecia com a Amélia que estavam acostumadas ver. Ela estava com as unhas por fazer, os cabelos, que cuidava com grande esmero, chegando a gastar fortunas para mantê-lo sempre maravilhoso, aparentemente quebradiço, sem vida. Amélia tentou disfarçar, mas era tarde demais. O castelo, de areia, havia desmoronado.

Nesse momento suas amigas foram acometidas por um grande sentimento de: Felicidade. A inveja se foi. Aquele sentimento mesquinho que sentiam se dissipou. Não havia mais rainhas ou plebéias. Não havia mais conto de fadas, agora era a vida real. E se sentiram feliz por isso, mas, com uma pontinha de tristeza, afinal eram amigas de Amélia e a amavam.
A tarde foi maravilhosa, feliz. Tão feliz que até combinaram de se reunirem na próxima semana.
Ao deixarem à casa de Amélia, suas amigas, não puderam se conter, e, felizes, foram embora cantando: “Amélia não tinha a menor vaidade. Amélia que era mulher de verdade...”.


A amiga merecia essa homenagem.

Marc Souza

segunda-feira, 10 de março de 2014

UM CONTO


  
Todos os dias era a mesma coisa. Sentada no ponto de ônibus ela vivia a imaginar. Imaginava uma vida melhor. Uma vida feliz, longe dos problemas e das dificuldades que vivia diariamente. Imaginava viver um amor. Um grande amor. Sentada no banco ficava a imaginar quando um príncipe encantado chegaria em seu cavalo branco lindo, e, lhe arrebatasse para viver um lindo conto de amor. Um verdadeiro conto de fadas.
Mas todos os dias era a mesma coisa. Logo o ônibus pararia e ela voltava a vida normal. Tomaria o ônibus lotado onde pareceria mais uma sardinha enlatada, andaria por uma hora até chegar ao trabalho e, no final da tarde retornaria à sua casa, sozinha, sem um amor. Sem viv’alma para conversar. Para desabafar. Para amar.
Como não poderia ser diferente, naquele dia chegou dez minutos antes do ônibus. Mas, algo aconteceu, algo diferente, pois, antes que ela se sentasse um belo carro parou ao seu lado e um rapaz, fez-lhe um sinal. Ela ignorou-o, mas, ele insistiu. De repente desceu do carro, e, sem dizer uma palavra sequer, abraçou-a e beijou-a, apaixonadamente.
- Todos os dias... Todos os dias passo por aqui e a vejo – disse ele - hoje, tomei coragem, para dizer-lhe: Sou completamente apaixonado por ti.  Eu te amo. – diz olhando em seus olhos.
- Mas... Mas eu nem lhe conheço... Eu... Eu nem sei...
- Eu te amo! Eu te amo! – grita ele chamando a atenção de todos que estão no local. Então ele se ajoelha. – Oh, meu amor! Abro agora o meu coração. Eu te amo! És a mulher da minha vida! A escolhida por meu coração, para amar por toda a vida. Por isso agora dispo-me de todo o meu ser e lhe peço e lhe imploro, venha comigo. Venha comigo e farei de você a mulher mais feliz do mundo.
Vendo tão bela declaração ela da adeus a razão. Esquece o bom senso e se entrega ao amor. Então ambos saem em disparada com o carro para viver um grande amor, enquanto no ponto de ônibus todos batem palmas entusiasmadamente por presenciarem tão belo momento.
A felicidade toma conta de si. De repente ela se esquece de todos os seus problemas, de todas as suas dificuldades, e dá as costas para a sua vida. Para viver uma vida nova. Uma vida de esperança. De amor. Sente-se feliz. Pela primeira vez na vida, sente viva. Isso mesmo sente-se viva. Sente o sangue escorrer pelas veias, chega a ouvir seus batimentos cardíacos.
Feliz. Uma felicidade contagiante. Uma felicidade verdadeira.
O carro está a toda velocidade pelas ruas da cidade, então um carro cruza à sua frente, que freia e buzina. Ela se assusta, e fecha os olhos, de repente, toda a sua vida passa como um filme. 
Silêncio total.
De repente outra buzinada.
Então ela abre os olhos e nota algo diferente. Não há carro, não há acidente. Só o ônibus lotado que parado à sua frente buzina.
- Ei, sua maluca, você não vai ao trabalho hoje não? – grita o motorista.
E tudo volta ao normal.

Marc Souza


domingo, 9 de março de 2014

UM CONTO SOBRE O AMOR




Eram casados havia muito tempo. E se amavam muito. Eram cúmplices na vida a dois. Amigos inseparáveis. Esposos. Casal. Um casal feliz.
            Apesar do tempo de casados, não tinham filhos. Na verdade, a correria do dia a dia. O trabalho, os muitos compromissos profissionais e sociais, não deixou a eles, sequer, tempo, para pensar em no assunto.
            Por isso, foram vivendo. Dia após dia. Mês após mês. Ano após ano. Vivendo suas histórias de amor.
            Um dia ela chegou em casa diferente. Queria conversar. Conversar sobre filhos. “São os hormônios” – pensou ele. E nem deu atenção ao que ela dizia. No entanto os dias foram passando e o assunto era sempre o mesmo. Seja na hora do almoço, do jantar o na hora de deitar. Filhos. Filhos. Filhos.
            Ele tentou ignorar o máximo que pode, mas, sem paciência com a leniência do marido, ela foi direto ao assunto. Queria ser mãe. Queria ter um filho. Dois talvez. Queria algo com que se preocupar. Queria ter responsabilidades. Queria ter alguém que ela pudesse cuidar, alimentar. Alguém que seria seu bem mais precioso.
            Após ouvi-la ele nada disse, somente abraçou-a e beijou-a ternamente.
            No outro dia, a surpresa; Ao chegar do trabalho ela encontrou no meio da sala com um laço de presente no pescoço, um lindo filhote de cão, que ao vê-la correu ao seu encontro esperando ganhar todo carinho de mãe.
            Ela amou o presente. Afinal a partir daquele dia conseguira alguém para cuidar, para se preocupar, para amar. A partir daquele dia, ela seria mãe. Mãe de um lindo e adorável cãozinho.
Uma mãe, mas, mãe solteira. Solteira.


Marc Souza

sexta-feira, 7 de março de 2014

LIVRO DO MARC




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O HOMEM DOS SONHOS




Estava totalmente destruída. Deprimida. Tudo havia acabado para sempre. Descobrira que não tinha vocação para amar. Descobrira naquele dia que não tinha vocação para o amor. Não. Daquele dia em diante se dedicaria há outras coisas. Pastoral da Saúde. Pastoral da Juventude, bem não tinha mais idade para ser chamada de jovem, mas e daí. Ou melhor, iria fundar uma ONG para corações quebrados. Dilacerados. Destruídos por falta de amor.
Ah! Que pena! Que pena!
Dias atrás ela estava tão, mas tão feliz. Há dias atrás tinha a certeza que encontrara um príncipe encantado. O amor da sua vida O homem mais perfeito do mundo. E era só dela. Somente dela. Para sempre. Todo o sempre.
Há dias, havia ter tirado a sorte grande afinal, onde encontrar um homem que não gostasse de futebol. Não ia a bares. Não tinha amigos enchendo o saco o tempo todo. Gostasse de comédias e filmes românticos. Um homem que tinha tudo incomum com ela.
Definitivamente tudo.
Eram almas gêmeas. A tampa e a panela.
Eram felizes. E assim seriam por toda a vida.
Gostos iguais. Programas iguais. Não tinha nada que desse errado entre eles dois. Com certeza haviam nascido um para o outro.
Ah, que pena! Que pena, que tudo não foi um mar de flores. Que pena.
Agora ela esta destruída. Acabada. Dilacerada. Seu coração apanhava, não mais batia.
Eram iguais ele e ela. Ela e ele. Tinham muito em comum. Na verdade tinham tudo em comum.
Gostavam de novela. Filmes românticos. Comédias. Odiavam futebol. Não bebiam. Não fumavam. Gostavam de passar a tarde passeando na praia. De ver o por do sol. De teatro. Vôlei. Pilates. Ioga. Era perfeito, ou quase perfeito.
Afinal eram iguais, em tudo, foi aí que a coisa ficou feia. Foi aí que o bicho pegou, afinal, ela gostava de homem e ele também.


Marc Souza

quinta-feira, 6 de março de 2014

O ATRASO


O ATRASO !?

Ao olhar no despertador percebeu que estava terrivelmente atrasado. “Droga” - pensou ele levantando-se rapidamente da cama – “Se eu não for demitido hoje, não vou nunca mais”.
Em poucos minutos já estava na rua, quase correndo, procurando chegar no trabalho o mínimo atrasado possível. Era a terceira vez na semana que chegaria atrasado ao trabalho, o pior, é que seu chefe fora bem direto da ultima vez: “Da próxima, rua. Entendeu? Rua?”
Não via nada á sua frente, somente pensava em qual desculpa daria ao chefe.
“Que merda de despertador! Que merda!” – pensava. “Agora não tem desculpa, é rua”.
Conforme andava, mais ficava ansioso. Nervoso. Desesperado. Não podia perder o emprego, não agora. Mas tinha que concordar com o chefe, estava muito relaxado nos últimos dias, mas, não tinha culpa. Sua jornada dupla estava acabando com ele. Era trabalho e faculdade. Faculdade e trabalho. A correria era grande, e o tempo curto. Muito curto.
Andava cansado. Exausto. Ainda mais que estava em semana de prova, o que era pior.
Por isso, ele quase corria, olhando no relógio de tempos em tempos procurando ao menos estar errado quanto à hora. Mas, infelizmente, não estava errado, e seu atraso era real. E a perda do seu emprego... A perda do seu emprego, idem.
Depois de muito andar começou a perceber algo diferente. De repente deu-se conta que o movimento estava anormal. A rua, sempre movimentada estava vazia. Não havia movimentação das pessoas atrasadas para o trabalho, tampouco, de veículos. Na verdade a rua estava morta, sem movimentação alguma, sem contar que as primeiras lojas do centro, que àquela hora já deveriam estar abertas ainda estavam fechadas.
Olhou novamente no relógio. Uma, duas, três vezes.
“Não é possível será que meu relógio parou? Acabou a pilha? Não! Não! O ponteiro está funcionando perfeitamente, olha os segundos sendo marcados religiosamente”.
Olhou à sua volta, mas tudo estava tão anormal. Tão parado. Até parecia um...
Foi aí que percebeu o que realmente estava acontecendo, o problema não era o seu relógio, ou seu despertador, então um alivio tomou conta do sí.
Afinal, era domingo.
De repente sentiu-se tranqüilo. Feliz. Renovado. Seu emprego estava garantido. Pelo menos até segunda feira.

Marc Souz


quarta-feira, 5 de março de 2014

A PROPOSTA



Ele estava louco.
Foi o que todo mundo pensou quando o barman chegou na mesa com aquela proposta. Proposta absurda por sinal.  A princípio todos se negaram a participar. Não iriam se aproveitar do pobre homem, que, com certeza não estava no seu juízo perfeito.
Mas, o barman insistiu. Insistiu. Insistiu, até que todos na mesa, não agüentassem mais e resolveram participar da aposta sugerida pelo barman.
- Deixe me ver se eu entendi – perguntou um – você vai jogar um copo contra aquele poste e ele não vai se quebrar.
- Exatamente – confirmou o barman.
- Você tem certeza disso? – perguntou outro – Você esta normal... Quero dizer você não está bêbado ou noiado? Você está sóbrio?
- Totalmente sóbrio – respondeu.
- Tudo bem, apostamos com você. Cenzinha de cada um de nós, contra cem seu, combinado?
- Combinado?
- Para que não reste dúvidas entre nós, você jogará este copo contra aquele poste e ele não se quebrará.
- Isso mesmo.
Colocaram as notas no meio da mesa.
O barman pegou o copo de vidro olhou diretamente no poste e lançou-o com toda a força. O choque do vidro contra o concreto do poste fez com que o copo se quebrasse em vários pedaços.
- Bem – começou um dos clientes – o que é combinado não é caro, não é verdade – vai pegando o dinheiro do centro da mesa, mas é interrompido pelo barman que toma o dinheiro dele.
- Com certeza – diz sorridente – dê uma olhada ali no poste e veja se ele quebrou.


Marc Souza