sexta-feira, 15 de novembro de 2013

ORGULHO E PRECONCEITO

         

Pardal era uma pessoa muito feia, aliás, dizer que ele era feio era um elogio, dos grandes. Da sua turma, era o único que nunca namorara. Apesar dos seus vinte e três anos ele ainda era virgem.
            Já Helena era linda. Maravilhosa! A mulher mais bonita da cidade. A mais cobiçada. A mais desejada.
            Pardal como dito, não namorava ninguém.
            Helena namorava Elivelton, que, namorava a cidade toda.
            Helena amava Elivelton, que, não estava nem aí para Helena.
            O amor de Helena a cegava, as amigas diziam a todo o momento quem realmente era Elivelton, mas, para Helena, elas mentiam para Helena elas tinham inveja dela, afinal, quem naquela cidade não queria namorar Elivelton, rapaz, rico, bonito, simpático e outros adjetivos mais.
            Não havia amor maior no mundo que o de Helena para Elivelton.
            Apesar da reprovação por parte das amigas, foi marcado o casamento de ambos, a indignação tomou conta de todas, aliás, a indignação tomou conta de toda a cidade, que, pequena, todos sabiam das escapadelas de Elivelton.
            Dias antes do casamento houve um baile na cidade.
            Todos estavam lá, inclusive Pardal e seus amigos, inclusive Helena e Elivelton.
            Bem, a cidade inteira estava lá.
            Era o acontecimento do ano.
            De repente Elivelton some, Helena sai à sua procura pelo salão encontrando-o aos beijos com Ester.
            A raiva toma conta de si, que saí do salão chorando, Elivelton nada faz, continua com Ester, agindo como se nada tivesse acontecido.
            Pardal caminha lentamente pelas ruas mal iluminadas da cidade, está sozinho, a solidão o persegue e já está conformado com isso, pois, toda noite é assim, saí com os amigos e no final da noite, quando seus amigos se ajeitam com uma ou outra garota ele volta para casa só.
            Ao longe Pardal observa um vulto que vem em sua direção a má iluminação dificulta sua visão por isso ele não consegue precisar que é, um súbito frio lhe sobe a espinha, mas, ao se aproximar do vulto nota que é Helena.
            Pardal conhecia Helena, no entanto nunca havia conversado com ela, estudaram juntos, freqüentavam os mesmos locais, no entanto, nunca trocaram uma palavra sequer.
            Helena era uma conhecida, desconhecida.
            Bem próximo a Helena, Pardal nota que ela chora então tímido, diz:
            - Desculpe Helena, mas, aconteceu algo?
            Helena pára, olha para ele e chorando o abraça.
            Helena chora copiosamente, Pardal, sem saber o que dizer fica em silêncio.
            Depois do primeiro contato, passam a noite inteira conversando, se lamentando, a mulher mais bonita da cidade com o homem mais feio, mas, nessa noite, eram duas pessoas que, cada um a sua maneira, sofria.
            Dias depois, começaram a namorar.
            O namoro, caiu como uma bomba na pequena cidade.
            “Afinal o que Helena poderia querer com Pardal?”
            “Só podia ser se vingar de Elivelton.”
            “Só podia ser despeito.”
            De repente, o namoro dos dois se transformou em indignação.
            A cidade inteira ficou indignada com a atitude de Helena.
            “Usar o Pardal desta maneira” - diziam. “Só pode ser coisa de mau caráter”.
            Ela começou a chegar xingada, a principio veladamente, depois, passaram a evitá-la.
            “Vagabunda”. “Ordinária” - diziam sobre ela.
            Mas, o novo casal não estava nem aí, os dias se passavam e eles a cada dia se mostravam mais apaixonados e felizes.
            Os dias se passavam e a cidade toda estava esperando pelo fim do relacionamento, ou como muitos diziam, a pouca vergonha orquestrada por Helena.
            Uma nova noticia sobre o namoro de Helena e Pardal, surgiu e, pois fogo na cidade, Pardal e Helena marcaram a data do casamento.
A população saiu na rua, todos estavam mais que indignados. “Coitado do Pardal, ele não merece tudo isso” - diziam.
Xingos, ofensas e até agressões sofreu Helena pela população, mas, Pardal a defendia apaixonado.
“Tadinho”. “Que ingenuidade” - pensavam.
Tentaram de todas as formas demovê-lo da idéia do casamento, não entanto não conseguiram, Pardal estava perdidamente apaixonado.
Quanto mais se aproximava a data do casamento mais a população se excitava e se preocupava com Pardal.
“Tadinho, levar um fora logo no dia do casamento”.
“Também, será que ele não se enxerga, não vê que ela é muita areia para o caminhão dele”.
“Vai sofrer, mas também, se ele procurasse alguém igual a ele”.
Helena e Pardal se casaram.
A população não os deixava em paz, em todos os cantos da cidade eram o assunto principal.
“Tadinho casou com a bonitona agora vai ser corno o resto da vida”.
“Tadinho nada, quem mandou ele casar com ela”.
“Isso mesmo, não vai dar pra ele reclamar, afinal foi avisado”.
“Uma mulher daquela casada com estrupício daquele, que desperdício”.
Pardal não foi corno, teve sim quatro filhos, três meninas e dois meninos.
Ele e Helena viveram anos e anos juntos e aos poucos a população foi se esquecendo, mudando de opinião, começando assim, a elogiá-los.
Elogiá-los pelos exemplos que davam a sociedade, de casal sério, honesto, comprometido, bons pais, bons esposos, boas pessoas.
Um casal feliz, que lutou e venceu preconceitos, um casal que se pode dizer, foi feliz para sempre.


Marc Souza

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A TRAGÉDIA


- Senhor! Senhor!
            - O quê? Por que esta sangria desatada?
            - É que... É que... Aconteceu uma tragédia!
            - Tragédia?
            - Sim, senhor... Aconteceu uma tragédia!
            - Como assim? Que tragédia é essa?
            - É que... – diz hesitante.
            - Vamos, desembucha logo!
            - É que... Sabe aquele dossiê que estávamos preparando.
            - Dossiê?
            - Sim! Aquele dossiê dos nossos adversários políticos, que estávamos...
            - Sei, sei – impacienta-se – O que aconteceu com ele?
            - Ele... Ele vazou.
            - O quê?
            - O dossiê, vazou.
            - E?
            - Senhor isso é um desastre total. Não demora muito e todos os grandes veículos de comunicação vão começar a falar sobre nós. Sobre o dossiê, e, tudo o que fizemos para conseguir elaborá-lo. Desculpe senhor, mas, as conseqüências, com certeza serão desastrosas.
            - Calma! Calma! Não esquenta com isso não.
            - Como não esquentar com esta situação? Senhor, estamos há poucos dias das eleições. E, estas informações vão cair como uma bomba. Desculpe o pessimismo, mas, estamos definitivamente, perdidos. Arruinados.
            - Arruinados?
- Isso mesmo! Arruinados!
- Que nada! Pode ficar tranqüilo. Parece que você, mesmo depois de tanto tempo me assessorando não aprendeu nada? Depois de anos na política ao invés de aprender, você começou a desaprender?
            - Ahn? Desculpe senhor mas...
            - Caro amigo, você acha que pobre compra jornal? Você acha que pobre compra alguma revista? A única revista que pobre compra é aquelas de fofocas, sabe, aquelas de artistas.
            - Tudo bem! Eles podem até não comprar jornais ou revistas, mas assistem a tv. E os jornais...
            - Nem pensar, esquece! A maioria do povo, quando começa o jornal mudam de canal. Querem novela ou algum programa de fofoca. Aqueles que assistem sequer prestam atenção, ou entendem o que realmente esta acontecendo. Sem contar que suas memórias são curtas. E o povo facilmente, manipulável. Depois a gente faz um programa eleitoral onde choramos, acusamos os adversários, e, já era. Fica tudo no papo.
            - Mas senhor???
            - Esqueça este assunto, tudo será resolvido, afinal, nunca antes nesse país...


Marc Souza

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

E FORAM INFELIZES PARA SEMPRE


- Olá meu amor! Tudo bem?
         - Tudo, e você? Como foi o seu dia?
         - Muito bem! Obrigada!
         - Ana, temos que conversar!
         - Aconteceu algo? Você está tão, sério.
         - Não aconteceu... Quero dizer... Sim... Aconteceu...
         - Aconteceu ou não aconteceu? Você está me deixando nervosa.
         - É que... É que...
         - Vamos! Diga logo que está acontecendo. Ou o que aconteceu.
         - Bem... É que... Eu pensei muito... Muito mesmo... E... E... Eu quero me separar...
         - Separar? Até que enfim. Olha vou dizer, essa é a melhor coisa que poderia acontecer.
         - Quer dizer que você concorda?
         - É claro! Meu amor é claro que concordo com você. Olha já tem alguns dias que eu quero lhe falar sobre isso.
         - Verdade!?
         - É...
         - É que eu pensava...
         - Olha ainda bem que entramos neste assunto, posso dizer o que eu acho?
         - Claro!
         - Eu acho que essa sociedade sua e do seu irmão não está mesmo dando certo. É sempre assim, você se mata de trabalhar e ele, não faz nada, absolutamente nada. Olha eu achei que você nunca iria cair na real. Mas, Deus é grande. Se é. Você já falou com ele? Ou estava esperando falar comigo primeiro? Pode ficar tranqüilo que eu vou te dar todo o apoio que precisar. Todo o apoio.
         - Ana, eu sinto muito, mas não é isso que eu quis te dizer.
         - O quê?
         - Não sobre a minha sociedade com meu irmão que estou falando... É sobre a nossa sociedade... Desculpe... Eu... Eu sinto muito.
         - Espera aí! Eu não estou entendendo aonde você quer chegar.
         - Ana, eu não quero chegar em lugar algum, eu já cheguei. Me desculpe mas eu quero me separar de você.
         - O que? Você quer dizer que o nosso namoro acabou? Você quer a nossa separação?
- É isso mesmo.
- Você não pode... Não pode... Tá ouvindo?
         - É claro que posso... Desculpe Ana, mas acabou... Você não sabe como eu estou me sentindo, mas, infelizmente não dá mais. Infelizmente. Eu tenho que ir embora... Mas uma vez, desculpe... Eu vou te deixar.
         - Seu... Seu... Seu filho de uma...
         - Hoje... Ana eu vou embora hoje.
         Ela começa a chorar.
         - Você não pode fazer isso. Seu mentiroso, você disse que me amava. Lembra você disse que me amava... Desgraçado, você não pode me deixar.
         - Posso. Não só posso, como vou. Ana, seria injusto de minha parte ficar com você, sabe por quê? Eu não a amo mais. Eu gosto muito de você. Gosto tanto que não quero, de modo algum, te enganar. Te machucar ainda mais. Por isso, eu estou tendo esta atitude com você, é o mínimo que posso fazer. Por você e por mim.
         - Não... você não pode... Não pode me deixar... Eu te amo... Te amo...
         Ela o agarra e o beija, mas seus beijos não são correspondidos. Ele está frio, e tenta a todo custo se desvencilhar dela. Nervosa, ela começa a bater-lhe no peito.
         - Filho da mãe! Desgraçado! Eu te odeio! Eu te odeio!
         Ele pega-a pelos braços e a leva para a cama, onde a deixa, deitada, chorando. Depois pega sua mala, que já estava pronta e vai embora.
         Dias depois.
         - Alô, é o Paulo... Sim Ana... Posso sim... Ta... Ta... Às oito... Combinado... Até mais...
         A campainha toca. Excitada Ana corre até a porta e a abre, Paulo a aespera com um buquê de rosas.
         - Que bom que você veio! Obrigada pelas flores, estas são as minhas preferidas. Ah! Desculpe a minha falta de educação, entre, por favor.
         Feliz, ela pega o buquê, enquanto Paulo entra e se no sofá.
         - Eu te convidei para jantarmos e decidirmos o que fazer com essas coisas, afinal, tudo que esta aqui dentro deste apartamento, é nosso, não é verdade?
         - Bem, é verdade, mas, eu não me importo, afinal, fui eu quem decidiu sair. Desculpe!
         - Não tem problema... O jantar já esta pronto, vamos aproveitar que esta tudo bem quentinho?
         - Nem precisar falar duas vezes. Eu estou morrendo de fome.
         Ambos comem e conversam animadamente. Então, logo após o jantar.
         - Olha, tudo estava maravilhoso! Divino! – Paulo está um pouco embriagado – Como sempre... Como sempre...
         - Obrigada pelos elogios. Eu fiz esse jantar especialmente para você.
         Ana chega bem próxima a Paulo, seus lábios quase tocam os dele. Seus olhares fixam-se um ao outro.
         - Eu te amo – diz Ana.
         Paulo reluta e, quebra o clima.
         - Desculpe Ana, mas, eu tenho que ir. Tenho um compromisso...
         - Está cedo, afinal, nem conversamos a respeito da nossa separação. Da divisão dos bens. Enfim...
         Paulo esta desconcertado. Não sabe o que fazer. Por isso, tenta a todo custo sair da casa. Deixar o local antes que perca a cabeça.
         - Outro dia... Outro a dia a gente conversa...
         - Mas...
         - Vou embora, ta bem? Até logo!
         Paulo vira-se e se encaminha até a porta.
         - Então ta. Outro dia a gente... - diz Ana desconcertada.
         - Conversa... Agora deixe-me ir. Muito obrigado pelo jantar. Obrigado mesmo.
         - Não tem de quê!
         Na porta eles ficam novamente frente a frente. Ao dar um beijo de despedida no rosto de Ana ela se vira fazendo com que ele beije a sua boca.
         De repente o instinto fala mais alto e Paulo desiste de ir embora e se entrega loucamente ao desejo.
         Na manhã seguinte ambos estão deitados na cama. Enquanto Paulo sente-se constrangido, Ana sente-se bem, satisfeita, feliz.
         - Ana, eu tenho que me desculpar por ontem à noite. A gente não devia...
         - Não se preocupe com isso. Aconteceu. Somos adultos e podemos muito bem viver com essa situação. Além do mais, esta não foi a nossa primeira vez. Não é verdade?
         - É que... É que...
         - Esquece. Você não me deve qualquer tipo de satisfações, tampouco eu a você.
         - Então deixa eu ir, já esta tarde e eu preciso ir trabalhar.
         - É... Eu também preciso.
         - Então... A gente se vê.
         - A gente se vê.
         Dois meses se passaram e Paulo e Ana não mais se viram.
Até que...
         Paulo atende ao telefone é Ana que esta do outro lado da linha.
         - Oi, tudo bem? Olha me desculpe por não ter mais entrado em contato com você, é que eu estou trabalhando muito sabe, estou sem tempo.
         Ana está nervosa.
         - Poupe-me de suas desculpas, ambos sabemos o porquê, de você não ter mais entrado em contato comigo, não é verdade?
         - Você esta nervosa? Sabe Ana é que...
         - Eu estou grávida.
         - O que?
         - Isso mesmo que você ouviu, eu estou grávida.
         - E?
         - O filho é seu.
         - Meu?
         - Exatamente. O filho que eu estou esperando é seu.
         - Ana, sinto muito, mas, eu nem sei o que dizer. Eu não esperava por isso. Pai, eu? Não acredito. Nem sei o que dizer. Eu estou surpreso. Muito surpreso.  Como foi isso? Quero dizer, olha Ana me desculpe, mas já faz alguns meses que agente, não... Você sabe... A gente não...
         - Você se lembra daquele jantar...
         - Lembro, é claro que lembro. Mas você não tomava remédio.
         - A gente havia se separado e, eu não estava mais tomando. Você sabe muito bem as reações que eu tenho ao tomá-los.
         - Olha... Desculpe é que eu fui pego de surpresa... Meu Deus! Nem sei o que dizer... Nem sei...
         - Diga que pelo menos vai assumir o seu filho.
         - Mais isso é claro. É claro que eu vou assumir. Um filho! Vou ser pai! Não acredito. Olha você pode contar comigo.
         - E que vai casar-se comigo.
         - Ana eu não posso, é que... Eu... Eu vou te ajudar no que for preciso, e mais um pouco, mas casar eu não posso... Sinto muito mas, não posso. Definitivamente... Eu...
         - Meu pai está vindo do interior, para conversar com você e adiantar todos os detalhes do nosso casamento. Ele esta furioso, mas eu disse que você é um cara legal e que não fugiria das suas responsabilidades. Nem comigo, nem com o bebê.
         - Ana... Deixa eu falar... É que...
         - Ele quer que casemos o quanto antes. Ele não quer ver a filha casar barriguda. Ele é bem careta quanto a isso. Ele quer me ver casando de branco. Como uma virgem, você acredita? Eu disse a ele que a gente nem precisava casar. Que a gente ia voltar a morar juntos. Mas, ele nem quis saber. Disse que não quer ter uma filha amasiada. Quer tudo como manda o figurino. Ele é de família conservadora, ele quer preto no branco, então fazer o quê né? Dei a mão a palmatória e aceitei as suas condições.
         - Mas eu estou...
         - Eu sei que você esta feliz sozinho, eu também estou muito feliz. Mas você sabe...
         - Eu Ana, eu estou namorando. Por isso não posso me casar com você.
         - Pode sim! Claro que pode. Sabe de uma coisa diga para a vagabunda que esta saindo com você, que você já tem uma dona. Diga que você vai ser papai.. Diga que você vai ter um lindo filho com a pessoa que você ama.
         - Ana eu não posso, eu gosto...
         - Gosta de mim! Você me ama! Ouviu! Você me ama! Essa fase de dúvidas já passou.
         Ana desliga o telefone, Paulo fica do outro lado da linha segurando o fone, como se continuasse a falar com ela, esta assustado, não acredita no que ouviu.
         Dias depois eles se casam em uma bela igreja do interior do estado, tudo como manda o figurino, muitos convidados, a noiva linda trajando um belíssimo vestido branco e...
E...

E foram infelizes para sempre.

Marc Souza

CIÚME CEGO, CEGO CIÚME


O ciúme de Aline era doentio, não deixava Olavo em paz um minuto sequer. Ligava para ele duas, três vezes ao dia, seja no trabalho ou em casa o telefone não parava de tocar. Ele já havia até sido advertido no trabalho por causa das ligações de Aline. Ligações estas sempre inconvenientes.
Mas, Olavo a amava. E como a amava.
Seus amigos e familiares eram contra seu namoro com Aline, por isso, pediam insistentemente para que ele terminasse o namoro com ela. Mas ele contrariava a todos. Olavo era perdidamente apaixonado por ela. Vivia por ela, e, para ela.
Depois de alguns meses de namoro resolveram noivar. Olavo era todo felicidade, pois iria se casar com a mulher amada. Àquela que ele escolhera para ser a mãe de seus filhos. Que ele escolhera para viver até o fim de sua vida.
 Aline sabia que os amigos de Olavo não a suportavam, por isso, fazia de tudo para afastá-los. Sabendo que a família de Olavo, também não gostava dela, ela, não fazia questão de conhecê-los. Bem, na verdade ela não conhecia nenhum familiar dele. Dizia que não era preciso, pois, se casaria com Olavo não com a família dele.
Além disso, Aline era ciumenta. Tinha um ciúme doentio de Olavo. Não foram poucas, as vezes que causara constrangimento para ele, ou para outras pessoas por causa do seu ciúme. Ela tinha ciúme de tudo e de todos, inclusive, dizia não suportar, algum dia ver a mãe dele ou sua irmã trocar carinhos com ele.
Todos diziam que Aline era doente, no entanto, Olavo não entendia assim, dizia que era amor que ela sentia por ele, um grande amor.
Dito isso pensaram até em interná-lo o que é claro, não foi feito.
Com a proximidade do casamento, Olavo se empolgava enquanto sua família se desesperava e muito, mas, felizmente ou infelizmente, não havia mais nada a fazer, eles o amavam e ele estava feliz, então, por que acabar com tamanha felicidade?
Faltando alguns detalhes para a festa de casamento, o casal saiu para realizarem algumas compras em um shopping.
No local, Aline vigiava todos os passos de Olavo, ele não podia olhar para o lado que ela já estava o censurando, principalmente quando ele conversava ou olhava com pessoas do sexo oposto.
Mas, ele era esperto, e conhecendo-a tomava todas as precauções, para não ser mal interpretado e dar inicio há um verdadeiro barraco.
Ao passarem em frente de uma loja, Aline vai entrando, mas Olavo a puxa pelo braço e, para evitar sua entrada a beija.
Um beijo apaixonado.
Mas ela, desconfiada por si só, pergunta:
- O que está acontecendo?
- Nada! Por quê?
- Não se faça de idiota.
- Como assim? Não estou te entendendo.
- Você – diz alterada – Você acha que sou besta, rapaz?
-...
- Por que você não quer entrar nesta loja?
- O quê? Você esta dizendo que eu não quero entrar nesta loja?
- Não estou dizendo, estou afirmando!
- Você esta equivocada!
- Você é que acha que eu sou tonta.
- De forma alguma. Você quer entrar nesta loja. Então vamos entrar.
- É claro que vamos – diz ela de forma imperativa.
Entraram.
De repente uma bela mulher vem em direção aos dois ela abraça e beija Olavo.
- Olavinho, que bom te ver!
Aline, sem pestanejar desfere um soco no rosto da moça que perde o equilíbrio e antes de cair Aline já esta sobre ela agredindo-a, com arranhões e puxões de cabelo.
Olavo separa a briga, aliás, separa a agressão de Aline contra a moça.
- Eu vou te matar, sua... Sua vagabunda... E depois eu mato você seu sem vergonha safado... Me solta... Vamos me solta se você for homem... Ordinária...
-Pára... Pára... – grita Olavo – Seu ciúme doentio agora foi longe demais.
- Me solta que eu vou matar essa vadia...
- Pára, já disse! Cala a boca!
- Eu...
- Se você não fosse tão egoísta... Se você conhecesse minha família... – ela começa a chorar – Saberia que esta é minha irmã.
O choro toma conta de todos. Elas se abraçam, todos se abraçam.
Tudo resolvido, dias depois, eles se casaram.
Um belíssimo casamento.
Dias depois houve uma outra confusão que pos fim ao casamento.
Ao voltar mais cedo do trabalho Alice encontrou Olavo transando com sua “irmã” no sofá da sala, nesse momento nada fez. Não gritou. Não agrediu Somente se foi, afinal, o “incesto” que ele estava cometendo, para ela, já era um bom castigo.

Marc Souza

CRÔNICA


ACESSEM O LINK, E LEIAM A CRÔNICA DO MARC NO JORNAL DA CIDADE ON LINE

http://www.jornaldacidadeonline.com.br/leitura_artigo.aspx?art=6579

sábado, 9 de novembro de 2013

RETALHOS



            - Meu amor, eu, eu, estou grávida! Muito legal não?
            - Você...Você está grávida?
            - Estou...Não é maravilhoso?
            - É... É... É sim.
            - Então, quando vamos...
            - Depois a gente fala sobre isso. Agora venha cá!
            Dias depois ele sumiu sem deixar vestígios de para onde foi.


            - É uma menina! – disse o médico ao realizar uma ultra-som.
            - Uma menina???
            - Sim, uma menina.
            - Tomara que venha com saúde doutor, afinal, terei que cuidar dela sozinha.
            - E o pai da criança?
            - Ele sumiu Doutor...Sumiu...
            - Como assim?
            - Quando descobriu que eu estava grávida ele simplesmente foi embora.
            - Mas vocês...
            - Namorávamos há cinco anos...Eu acreditava muito nele...Muito mesmo.


            Uma criança chora.
            - Mamãe, é uma menina, uma bela menina.
            - Posso vê-la, Doutor?
            - É claro, minha filha!
            A menina é colocada em seus braços, emocionada a mãe a beija com muito amor e carinho e chora.


            Festa de aniversário.
            Todos cantam.           
- Parabéns pra você, nesta data querida...
            É seu primeiro aniversário, a mãe trabalhou muito para que fosse realizada essa festa.
            No local há muitas crianças, felizes.
            Bolos, refrigerantes, cachorros quentes, doces, tudo foi comprado com muito amor.
            - Te amo mamã... – diz a criança ainda não sabendo soletrar as palavras corretamente.
            - Eu também, filha...Sua mãe também te ama muito – diz a mãe emocionada.


            - Eu tenho o direito de vê-la, afinal, sou o pai.
            - Você perdeu esse direito quando nos abandonou, seu...Seu....
            - Seu o quê?
            - Olha eu não quero nem saber, mas a minha filha você não vai ver nunca. Você nos abandonou e agora aparece dizendo que quer ver a minha filha, você não é nada dela, nada.
            - Sou o pai...Me desculpa...Eu sei que você ta chateada, mas eu era muito imaturo.
            - E agora você mudou não é?
            - É! Eu mudei...Eu sei que não fui nem um pouco honesto com você, muito menos com a nossa filha, mas, mas eu quero mudar essa história eu quero ser um pai para ela.
            - Eu não quero que você nem chegue perto da minha filha, eu sofri muito para cuidar dela, passei fome, passei dificuldades, mas agora ela está aí, bonita com saúde, feliz...E nunca precisou de um pai...Você sabia que ela nunca perguntou pelo inútil do pai dela...Vai ver ela sempre soube no seu íntimo, que você nunca valeu nada...Que você só me usou...
            - Eu não te usei...Eu...Eu me arrependo muito do que eu fiz...Por favor, me perdoa...Eu quero dar meu nome para ela, eu quero fazer parte da vida dela...Eu quero te ajudar a cuidar.
            - Ora...Ora...Depois de cinco anos você me aparece do nada, e diz querer me ajudar a cuidar da minha filha. Por favor, mas eu gostaria que você fosse embora...Fosse para o lugar de onde você saiu...Lugar de onde você não deveria ter saído...Agora por favor, suma da minha frente...Ou...
            - Ou????
            - Por favor, saia daqui!!!!
            - Eu vou lutar pelos meus direitos...Afinal eu tenho o direito de ver a minha família...Eu tenho direitos de participar de seu crescimento, da sua vida...
            - Agora você vem me falar em direitos, você nos abandonou, nunca veio atrás de saber como estávamos, ou melhor, nunca se quer quis saber de como a sua filha estava. Quando ela ficou doente, quando nasceu seu primeiro dente, quando ela cortou seu cabelo pela primeira vez, quando ela disse sua primeira palavra. Você nunca quis saber de nada. Você quantas vezes passei as noites em claro, cuidando da minha filha.
            - Nossa...
            - Cale-se...Você nem sabe o que é ter um filho.
            - Mas...
            - Saia daqui...Agora....
            - Eu vou lutar pelos meus direitos, você pode ter certeza disso.
            Após dizer isto ele sai.


            Dia depois um oficial de justiça para defronte a casa.
            Bate palmas, mas não sai ninguém.
            O oficial insiste, mas nada, a casa está fechada.
            - Eles mudaram – diz uma vizinha.
            - Você poderia me dizer para onde? – pergunta o oficial.
            - Sei não...Sei não.


            Em uma cidade distante ela novamente recomeça a sua vida, longe de tudo, da sua família, de seus amigos, mas com a coisa mais preciosa de sua vida, sua filha.
            A quem tanta ama. A quem sempre cuidou. Pensa nos que deixou, mas se alegra, pois, onde está, ninguém nunca poderá tirar sua filha de si.
            Em seu íntimo está muito feliz, pois, fez da mesma maneira que seu namorado. Sumiu.Só que ela não voltará jamais...



Marc Souza

A DECISÃO


Fez um esforço tremendo, mas subiu, subiu o mais alto possível.
Ao chegar ao topo, sentia todo o corpo tremer de cansaço. Não sentia mais suas pernas. Encontrava dificuldade até em respirar. Então, sentou-se, esperando recobrar suas forças e acalmar os nervos.
Instante depois, sentiu que sua força retornara. Agora, estava pronto para outra. Animou-se, mas, nem tanto.
Devagar, encaminhou-se até a beirada. Estava alto, muito alto. Alto até demais. Olhando para baixo e sentiu um frio na espinha, sua visão ficou prejudicada, pois, sentiu uma leve tontura. Procurou se manter tranqüilo, respirou fundo, e tentou não desviar os olhos do abismo à sua frente procurando, assim, acostumar-se com a altura, o que não demorou mais que alguns segundos para acontecer.
É agora, pensou, tem que ser.
Não, não foi, olhando a imensidão à sua frente, declinou, não teve coragem. De repente, sentiu medo, muito medo, seu coração começou a bater tão forte e rápido que parecia que iria explodir. Parecia que iria sair pela boca.
Então, sentiu-se mal, um covarde e voltou para traz. Sentou-se a alguma distância da beirada e esperou.
Esperou bastante. Esperou até se sentir seguro novamente. Esperou até a coragem voltar.
Não vou voltar, disse baixinho, me esforcei muito para chegar até aqui, agora, não dá mais para voltar atrás. Agora não vou mais voltar atrás. É agora, ou nunca.
Nesse instante começou a pensar sobre sua vida. Sobre seus amigos, sua família. Pensou sobre suas vitórias e fracassos. E resolveu tomar uma atitude e, sem pensar em nada, foi até a beirada e se jogou. No nada. No vazio. No desconhecido.
Então uma sensação maravilhosa tomou conta de si. Vários sentimentos vieram à flor da pele. Euforia, alegria, felicidade, paz. Liberdade.
           Ele fechou os olhos, abriu os braços e deixou-se levar, deixou-se sentir o atrito de seu corpo contra o ar, contra o vento que o embalava na imensidão, do vazio em que se jogara. No semblante um breve e sincero sorriso. Ele estava feliz. Nada mais existia. E, por um instante esqueceu-se de tudo.
            Esqueceu-se até, que naquele momento caía rumo ao desconhecido, pois, estava nos braços do ar, rumo ao... . Rumo ao...
            De repente um sentimento ruim toma conta de si.
            Solidão. Angustia. Medo.
            Abre os olhos e vê que falta pouco.
            Falta pouco?
            Pouco para o quê?
            Para o sucesso?
            O fracasso?
            Pouco para o fim?
            Fim de quê?
            Por quê?
            Um turbilhão de sentimentos o assombra.
Então se arrepende.
            Mas, ao mesmo tempo se orgulha.
            Orgulho?
            De quê?
            Ele chora.
            Agora não há mais tempo.
            Acabou.
            Acabou?
            Sim.
            Não?
            Nããããooooo???
            No ultimo segundo ele reza, pede perdão. No ultimo minuto se emociona. E faz a única coisa que tem que fazer.

No ultimo segundo, ele, pela primeira vez, bate suas asas e antes de se chocar contra o solo, sai  voando pela imensidão do céu.

Marc Souza

AS APARÊNCIAS

 AS APARÊNCIAS


O ônibus está estupidamente lotado. Maria, a contragosto, entra, não gosta de andar de ônibus a essa hora do dia. No entanto é preciso, pois, sua filha a espera, e o assunto a tratarem é muito, muito importante, e não pode esperar.
O transporte público é um caos, a superlotação, as más condições dos veículos o horário irregular, além de outras mazelas, deixa todos os usuários irritadiços. Maria, como não poderia deixar de ser, esta tremendamente irritada, se já não bastasse a cada parada do ônibus, subir mais passageiros do que os que desceram, ela ainda, tem que aturar alguns homens se esfregando nela de forma maliciosa, pois, sem lugar para sentar ela tem que viajar de pé.
A cada parada Maria fecha os olhos para não ver a quantidade de pessoas que sobem no ônibus. Ela, aos poucos, vai entrando em desespero. Na ultima parada Maria observa que, dois rapazes negros, acabaram de entrar.
Ao perceber a entrada dos rapazes, Maria, sente um frio na espinha. De repente é tomada por uma grande sensação de insegurança e por um medo quase que incontrolável. Instintivamente protege sua bolsa, segurando-a fortemente junto a seu corpo.
O ônibus volta a andar, mas, Maria, fica incomodada com a presença dos novos passageiros e não tira os olhos deles, nem por um segundo. O medo aumenta, uma angustia incontrolável começa a tomar conta do seu coração. Baixinho ela começa a rezar. Em sua mente, várias situações começam a ganhar vida e, em todas, os novos passageiros são parte atuante.
“E se eles me pegarem de refém” - pensa.
“Meu Deus, e se eu for assassinada por um deles em um momento de nervosismo.”
“Não que eu seja racista, mas, olha a cara deles, parecem que estão esperando o momento certo para darem o bote e nos roubarem. Minha bolsa, tenho que proteger a minha bolsa”.
“Olha a cara deles, olha a cara de maldade que eles tem”.
“E agora, o que fazer?”
“Quantas pessoas saem de casa, pegam um ônibus e não conseguem chegar ao seu destino? Quantas?”
Maria não consegue tirar os olhos dos dois rapazes, tampouco, afastar os maus pensamentos.
Os pontos de ônibus vão passando, passando. O numero de passageiros aos poucos vão diminuindo e nada de os rapazes descerem.
Maria entra em desespero.
“Será que eu tenho razão?”
“Será que eles vão aprontar algo conosco?”
“Eles devem estar esperando aumentar o dinheiro no caixa do cobrador.”
Falta, ainda, duas paradas para Maria chegar ao seu destino, mas, não agüenta a pressão que sua mente esta fazendo contra si, angustiada, quando o ônibus para, ela empurra as pessoas que estão no corredor e, como uma louca, desce correndo, sob o olhar atônito dos passageiros.
Fora do ônibus aos poucos Maria vai recobrando a razão, aos poucos vai se acalmando.
“Estou salva agora”.
Sua respiração volta ao normal. A angustia desaparece.
“Desci um pouco longe, mas, não há nada que uma boa caminhada não resolva, dentro de alguns minutos chegarei à casa de Helena.”
“Graças a Deus desci antes que aqueles negrinhos fizessem o serviço”.
“Tolos, idiotas, acharam que iam me pegar.”
“Se ferraram”.
Maria caminha tranquilamente pela rua, sente-se muito segura.
De repente ela sente em suas costas um objeto que, pontiagudo, a machuca, antes de pensar no que está acontecendo uma voz lhe diz de maneira firme:
- Por favor, a senhora poderia me passar sua bolsa?
- O quê?
- A bolsa minha senhora, a senhora quer que eu grite para todo mundo ouvir que isto é um assalto?
“Filhos de uma mãe”.
“Só pode ser vingança, daqueles negrinhos”.
“Só porque eu descobri o plano deles, eles estão aqui para se vingar”.
“Queriam roubar o ônibus, mas, como não deu certo, eles me seguem e me roubam”.
“Safados”.
- Olhe aqui dona, vamos passar logo essa porra dessa bolsa, antes que eu perca a paciência e te fure, sua vaca.
- Toma – diz Maria entregando a bolsa, sem olhar para traz.
- Valeu dona! Um bom dia para a senhora, ta ligada.
De posse da bolsa, o assaltante vai embora, caminhando pela rua, lentamente, como se nada tivesse acontecido.
Maria, tremendo de medo, se vira, e observa o rapaz caminhando calmamente, carregando sua bolsa, o rapaz, branco de estatura média, bem apessoado, traja roupas, rigorosamente limpas, de grife. Um rapaz acima de qualquer suspeita.
Nervosa, Maria põe-se a andar no sentido contrário, pois, precisa chegar logo à casa da filha, no entanto, não consegue esconder sua tristeza, e principalmente, sua vergonha.
Enquanto isso, no ônibus.
- Que mulher esquisita né João?
- É, bem que o pai falo que as pessoas da cidade grande eram muito esquisitas, Zé.
- Deve ser a poluição, que deixam as pessoas assim.
- É deve ser.
O ônibus pára.
- Chegamo.
- Vamos descer então, antes que a gente se perca nessa selva de pedra.
- Sabe Zé, o pai disse, também, que aqui, as pessoas eram muito racistas, mas por enquanto, eu não me apercebi de nada não, e você?
           - Também, não João. Também não.

Marc Souza