segunda-feira, 14 de julho de 2014

DETALHE


Ele passou o dia todo procurando emprego, mas, em vão.
Andou, andou, andou e nada. Sem emprego. Uma proposta sequer. Mais um dia em vão. Mais um dia sem conseguir aquilo que mais desejava naquele momento: Um emprego.
Era só isso que desejava: Um emprego.
Havia muito meses não encontrava um “bico” sequer.
O dinheiro estava acabando. Não só o dinheiro, indispensável para a sua sobrevivência, mas a esperança também estava se esvaindo. Estava triste e desanimado, mas, procurava não desistir. Estava difícil, mas, não podia desistir.
Ele tinha que continuar, e acreditar, que logo as coisas iriam melhorar. Logo estaria empregado e feliz novamente.
Cansado pelo dia estafante ele resolveu sentar-se no banco da praça. As pessoas iam e viam, passavam pela sua frente, mas, ele estava tão absorto em seus pensamentos, que não via nada. Somente vultos que transitavam à sua frente. Pessoas sem rostos e sem histórias. Pessoas como ele, invisíveis ao sistema. Um sistema falido, que o considerava, apesar da pouca idade, quase um inválido.
A desculpa era sempre a mesma: Quando ele tinha experiência no trabalho, estava muito velho. Quando não conhecia o trabalho ele não tinha a experiência que a empresa esperava.
Era isso que estava vivendo. Uma vida de insegurança e medo. Uma vida de sentimentos diversos. Decepção. Desânimo. Medo.
Sentado naquele banco alheio ao que estava acontecendo, à sua volta, deixou-se abater. De repente não tinha mais forças para sair dali. De repente não queria mais sair dali. Estava totalmente entregue.
As horas foram passando e ele foi ficando. Ficando. Imóvel. A noite estava caindo e ele ali. Olhando para o nada.
Com a noite os personagens da praça foram mudando. Logo uma mulher, com trajes mínimos pára à sua frente.
- Olá bonitão – diz ela se oferecendo a ele, que, a ignora – Bonitão – ela não desiste – Bonitão, estou falando com você.
- Oi – responde educadamente, mas sem prestar muito atenção a ela.
- Você, não esta interessado? – continua ela mostrando-lhe o corpão.
- Interessado? – pergunta totalmente desinteressado.
- Você não esta interessado em se divertir um pouco. Fazer um programinha.
- Fazer um programa?
- Isso mesmo, meu lindo – diz ela sentando-se ao seu lado.
Ele olha para ela, pega a carteira e conta o dinheiro que tem. Pensa um pouco, então decide:
- Acho que sim – responde ele.
- Acha, ou tem certeza? – ela pergunta fazendo carinho nele.
- Vamos lá - diz ele já se levantando abraçado a ela – Mas eu tenho que te dizer algo.
- O que quiser meu lindo! Você pode dizer o que quiser, paixão
- Cobro cem reais!


Marc Souza

sábado, 12 de julho de 2014

CONVERSA MÉDICA

            
CONVERSA MÉDICA

Em um consultório médico.
            - Então doutor, o senhor... O senhor tem certeza? – pergunta ela.
            - Absoluta! Certeza absoluta! – responde o médico.
            - E o que eu preciso fazer para... O senhor sabe...
            De repente ela se sente totalmente perdida, cheia de duvidas. Afinal, nunca esperou viver tal situação.
            - Primeiramente, repouso. Muito repouso. Uma boa alimentação. E claro, evitar qualquer tipo de esforço. Ah! Outra coisa, o acompanhamento médico é fundamental.
            - E remédios? Quais remédios devo tomar?
            - Remédios? – começa a pensar – Remédios? Tem algo que você pode tomar, mas, vou ser sincero, esses remédios só vão amenizar os sintomas. Infelizmente qualquer remédio que eu lhe receitar de nada vai adiantar. Os sintomas vão continuar, eles podem diminuir a intensidade, mas, vão continuar. Nenhum remédio vai cortar os sintomas por completo. Nenhum.
            - Entendo.
            - Vou receitar alguma coisa para você, para amenizar um pouco o que você vai sentir neste tempo. Mas o importante é que você se alimente bem, e repouse. Repouse muito, ok?
            - Sim! Sim senhor! Mas doutor?
            - Pois não!
            - Quanto... Quanto tempo?
            - Como?
            - Doutor, quanto tempo tenho? Quero dizer, quanto tempo falta?
            - Sete meses!
            - Sete meses?
            - Exatamente, dentro de sete meses, você será uma linda. Uma linda mamãe. Parabéns!


Marc Souza

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A DECLARAÇÃO


A DECLARAÇÃO

Naquele dia, entrou no ônibus decidido; Iria se declarar a ela. Dizer que a amava. Que ela era o grande amor de sua vida. Há dias pensava nisso e naquele momento havia tomado a grande decisão. Não mais esconderia seus sentimentos. Não mais.
Ele a amava desde o primeiro dia que a vira entrar naquele ônibus lotado. De repente, na confusão de pessoas que procuravam se acomodar dentro do ônibus lotado ela surgiu. Linda. Radiante. De uma hora para outra tudo se transformou. Não havia mais caos. Não havia mais desconforto. De uma hora para outra o sofrimento, a dificuldade daquela situação transformou-se em prazer. Prazer em vê-la mesmo que a distância. Seus olhos. Seus cabelos. Seu jeito meigo de ser. De repente se viu apaixonado. Perdidamente apaixonado por aquela garota.
A partir daquele dia ele não via a hora de tomar o ônibus de manhã. Apesar do sofrimento que era enfrentá-lo naquele horário, horário em que todos iam para o trabalho. Queria vê-la. Nem se fosse de longe. Ele fazia de tudo para ficar próximo a ela. Algumas vezes, quando tinha lugar para ele sentar, logo que ela entrava no ônibus usava de seu cavalheirismo passando-lhe o lugar. Quando não, fingia dormir para que ninguém sentasse ao seu lado na poltrona até ela chegar.
E trocavam olhares. Trocavam sorrisos. Mas nunca, nunca conversaram. Nunca trocaram uma palavra sequer. Até aquele dia. Aquele fatídico dia.
Na noite anterior ele ensaiara todos os passos que daria na manhã seguinte. A forma de se comportar. As palavras a dizer. Ficou horas e horas na frente do espelho. De manhã, tomou um banho. Passou sua melhor colônia e saiu. Decidido. Iria definitivamente entregar-se a seu grande amor.
O ônibus estava praticamente vazio quando entrou. “Um sinal” – pensou - “Um bom sinal”. Encontrou uma poltrona vazia e sentou-se. Para que ninguém sentasse ao seu lado fingiu dormir. Vez ou outra abria os olhos discretamente observando a movimentação dos passageiros, mas, mais uma vez tudo ocorreu bem. Tudo estava contribuindo para que ele naquela manhã se entregasse ao amor. E declarasse de uma vez todo o amor que sentia por ela.
Mais uma parada e lá vem ela. Bela. Iluminando todo o local. Trazendo luz às trevas do seu coração. Trazendo o cantar dos pássaros ao silêncio da sua vida. Ele fica nervoso. Tenso. Ansioso. De repente seu coração começa a bater forte. A respiração esta ofegante, mas ele luta contra a ansiedade com todas as suas forças. Então se levanta e oferece um lugar ao seu lado. Ela lhe sorri e senta-se.
“Agora é a hora” – pensa – “Tudo esta saindo como planejado” “É um sinal”.
Estão lado a lado. Ele tenta conter a ansiedade antes de puxar conversa com ela, afinal não quer passar vergonha na frente da pessoa amada. Tenta controlar a respiração, abaixar os batimentos cardíacos. Afinal parece que o seu coração vai sair pela boca.
Trocam olhares. Sorrisos.
“É hoje.” “Tem que ser”. “Meu Deus! Como ela é linda!”. “Linda!”.
Ela olha para ele e sorri. Um sorriso que o deixa hipnotizado. Paralisado. “Ela me ama, vejo em seus olhos”. “Seu sorriso”. “Seu olhar”. “É agora, tem que ser”.
Encorajado com a situação, ele a olha ternamente. Um olhar de pessoa apaixonada. Então, antes de se declarar:
- Moço!? – começa ela - O senhor... Desculpe, mas... O senhor esta com uma caquinha no nariz. Bem aqui ó... – completa fazendo um sinal.
Foi um banho de água fria. A vergonha tomou conta dele, que, limpando o nariz rapidamente levantou-se e saiu, em silêncio. Logo no primeiro ponto que o ônibus parou, ele desceu, e nem olhou para traz.


Marc Souz (escritor)

Este conto está no meu livro casos Acasos e DEScasos à venda na Aped Editora Aped no link:
http://www.apededitora.com.br/livraria-virtual/
Seção entretenimento
Ou no email: marcsouz@yahoo.com.br

quinta-feira, 19 de junho de 2014

BELEZA!?



“Ele é muito feio. Horrível”. - pensou ela – “Meu Deus, onde ela arrumou um namorado tão desconjuntado assim?” - continuou – “Eu sinto muito, mas, vou ter que ter uma conversa séria com ela. Como serão seus filhos? Como serão os meus netos? Se puxarem para ele, eu não sei nem o que dizer. Eu tenho que tomar uma atitude antes que seja tarde demais”.
Aquela era a primeira vez que vira o namorado da filha. E, como a primeira impressão é a que fica. Estava decepcionada. Para ela, ele era muito feio. Estava aquém da beleza de sua filha. Uma menina bonita, na verdade linda, que tinha um grande futuro pela frente. Que poderia arrumar o namorado que quisesse. Mas aquele, aquele não. Não poderia suportar as brincadeiras, e, principalmente os comentários que as pessoas fariam da sua filha.
“Ela é tão bonita mais com um namorado tão feio, tadinha”. “Aquele rapaz é mais feio do que bater na mãe por causa de mistura na sexta feira santa.” “Se os filhos deles puxarem ao pai, só por Deus para ter misericórdia deles.” “Será que ela estava com tanto medo de ficar para titia que pegou o primeiro homem que apareceu?”
Ela teria que tomar uma atitude e livrar a filha daquela situação embaraçosa.
Deixou-os na sala e foi pegar água na cozinha. Quando retornou disse para a filha.
- Meu amor eu gostaria de falar-lhe. É um minutinho só.
- É claro mamãe, espere só um pouquinho que o Tiago esta descrevendo para o papai o tour que faremos pela Europa na nossa lua de mel. A senhora sabia que ele tem uma casa na Toscana? E é sócio de um resort na Grécia?
- Ah! – interrompe Tiago – Mas pode ficar tranqüila sogrinha que eu não vou tirar a sua filha da senhora não. Meus negócios na Europa ficam sob a responsabilidade do meu sócio. Eu cuido das empresas aqui do Brasil. Uma ou duas vezes por ano a gente vai para a Europa, mas, é jogo rápido. Se quiser, a senhora pode até ir conosco.
Ela assentiu e sai. Volta para a cozinha para guardar a jarra e os copos, sua filha entra em seguida.
- Diga mamãe, o que a senhora queria falar-me?
A mãe olha nos olhos da filha e, engole seco. Pensa algumas coisas que poderia dizer. Mas, nada diz.
- Não era nada não filha, esquece.
- Mas a senhora...
- Vá lá com o seu namorado, eu já estou indo.
- Mãe?
- Tá bom... Tá bom... – ela aperta a mão da filha firme, e olha diretamente em seus olhos – Eu... Eu espero que você seja muito, muito feliz, filha. Você tem a minha benção.
Lágrimas descem dos olhos da filha que responde: - Obrigada mãe. Eu fico muito feliz que tenha gostado dele, e que tenha me dado a sua benção – beija a mão da mãe e sai.
Da cozinha a mãe os observa na sala, conversando, felizes.
“Pensando bem, ele tem até uma certa beleza, uma beleza peculiar. Exótica”


Marc Souza

quarta-feira, 18 de junho de 2014

TRÁGICA SURPRESA


            

            
TRÁGICA SURPRESA

Ao entrar no restaurante, a surpresa.
Ele não podia acreditar no que estava vendo. Ou, não queria. Mas, eles estavam lá, os dois. Parecia um casal. Um casal apaixonado.
            A troca de olhares, os sorrisos. O toque.
            “Sim, eles estão apaixonados” – pensou.
            Aquilo foi um banho de água fria. De repente ele sentiu que seu mundo fosse desabar. A dor que sentira era forte, tão forte que parecia que seu coração fora transpassado por algo.
            Não merecia aquilo. Não, não merecia. Sempre fora fiel. Honesto. Procurava dar o máximo de si na sua relação. E agora, tivera aquela surpresa. Grande surpresa. Terrível surpresa.
            Olhou mais uma vez, e viu-os se beijando. Se lhes contassem com certeza não acreditaria. Mas, agora, vendo-os a poucos metros...
            Queria sair dali. Sumir. Desaparecer para sempre.
Ou melhor, queria não estar ali. Queria estar em qualquer outro lugar do mundo, menos ali. Dezenas, centenas de restaurantes e ele fora escolher logo aquele. Logo naquele horário.
Os deuses não foram bons para com ele. Não merecia vivenciar aquela situação, ver aquilo. Ver aquele lindo e belo casal. Sorrindo. Felizes. Talvez, desdenhando dele. Se divertindo com a sua ignorância. Se divertindo com aquela traição.
Triste, desiludido resolveu sair. Deixar aquele lugar amaldiçoado. Aquele lugar onde encontrou a decepção. Onde seu coração fora partido, talvez, para sempre. No entanto, ao chegar na porta, tomou uma decisão; As coisas não poderiam, não deveriam ficar assim.
Então, se dirigiu a mesa em que eles estavam. O casal sorria quando ele chegou. Um sorriso que foi cortado bruscamente com a sua presença. Um sorriso que, de repente transformou-se em silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
Cortando o silêncio, como uma adaga, ele disse: - Não acredito que você fez isso comigo, Carlos Eduardo. Não acredito! Não acredito que você teve a coragem de me trair. – e saiu totalmente descontrolado.

                                                                                                                                 Marc Souza            

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A FESTA


         
Ela era a menina mais bonita da escola, e, estava olhando para ele. Fixamente. Não tirava os olhos dele, desde que ele chegara à festa. Além da troca de olhares, vez ou outra, rolava um sorriso tímido. Mas, um sorriso.
         Assim foi quase a noite toda. Troca de olhares, sorrisos, afins. Apesar de tudo, ele não tinha coragem de ir conversar com ela. Ficava somente a observá-la. A cobiçá-la.
Afinal ela era a garota mais bela que ele vira em toda a sua vida. Era muito popular e tinha todos os garotos da escola aos seus pés.
Quanto a ele...
Ele não era feio. Para ser sincero, ele tinha uma beleza exótica. Peculiar. Para não falar estranha. Estava muito longe de ser popular sua vida social, ou melhor, seus amigos se resumiam a três ou quatro, todos do sexo masculino. Seus namoros, bem, seus namoros eram só virtuais. Platônicos.
Era invisível. Ninguém o via. Principalmente quando se tratava de pessoas do sexo oposto.
Mas, naquela noite tudo pareceria mudar. Logo, os ventos estavam soprando a seu favor. E soprando forte, afinal, a garota mais linda da escola não tirava os olhos dele.
O pior era que ele não sabia o que fazer. Sentia-se o garoto mais importante da festa. O garoto mais feliz da festa. No entanto só a olhava e sonhava, sonhava com situações que talvez, jamais aconteceriam.
Mesmo buscando forças em seu intimo. Coragem, onde não tinha. Estava completamente imóvel. Não conseguia sair do lugar. Não conseguia tomar qualquer atitude que fosse, a não ser retribuir o olhar. E sorrir, um sorriso bobo.
De repente ela sumiu, desapareceu. Ele procurou-a, mas não conseguia encontrá-la. Então alguém o tocou. Era ela. Linda. Parecia um sonho. Seus cabelos balançando ao vento, igual a um comercial de shampoo, deixou-o totalmente hipnotizado.
Aos poucos, os lábios dela foram se aproximando dos dele. O mundo parara. Tudo estava mais lento. Mais sedutor. Esperando um beijo ele fecha os olhos. Então ela fala bem baixinho ao seu ouvido.
- E aí, será que gata da sua irmã, vai demorar para chegar?


Marc Souza

terça-feira, 20 de maio de 2014

FLORES


Conto do Novo Livro, confira:

AMÉLIA



Não havia musica que Amélia mais odiava que: “Ai que saudade da Amélia”, não podia acreditar que existisse uma mulher como tal. E, o que era pior, não suportava as brincadeiras a que era obrigada a ouvir por causa do seu nome. Até por que ela era o oposto da Amélia da música. Ela era independente, lutava pelo o que acredita, por isso não escondia sua insatisfação quando alguém chegava próximo a si e começava a cantar: “Aquilo que era mulher...”.
Amélia acreditava na igualdade entre o homem e a mulher. Ou melhor, acreditava que o homem devia fazer de tudo para agradar a mulher. Não conseguia entender, nem aceitar uma música como aquela, musica que, para ela, em momento algum enaltecia a mulher por suas lutas, e sim, por sua acomodação, aceitação, subserviência ao homem. E isso era inadmissível. “Essa história de passar fome e achar bonito não ter o que comer. De mulher não ter vaidade. Não existe” – dizia.
Por isso vivia a criticar as mulheres que abdicavam da sua vida pelo marido, pelo casamento. “A mulher não é simplesmente uma máquina de fazer filhos e limpar a casa.” – afirmava.
Bonita, bem sucedida, Amélia namorara poucas vezes, com trinta e sete anos já estava ficando para titia, bem, ficando não já era titia. Todas as suas amigas de infância já haviam se casado.
Mas, apesar de mostrar-se casca dura, Amélia, era sim, uma mulher romântica. E como todas as mulheres românticas, sonhava com a chegada de seu príncipe encantado, que, montado em seu cavalo branco, a arrebataria e a levasse para seu castelo onde viveriam felizes para sempre. Um homem que viveria para lhe fazer feliz.  Que não gostasse de futebol, sem amigos e sem ex-namoradas. Que a trataria como uma princesa, ou melhor, como uma rainha.
“Este homem que você deseja, infelizmente, não existe” – diziam suas amigas. “Ou é o bar, ou o futebol, os homens nunca vêem sozinhos. Sem contar com aqueles que vêm com os dois”.
“Por isso que estou sozinha” – respondia – “Eu que não vou ficar em casa passando roupa enquanto o meu marido sai para jogar futebol ou beber cerveja com amigos. Não sou empregada de ninguém. No meu lar, serei a rainha. Vocês que são umas bobas, idiotas”.
Mas todas sabiam que tudo o que ela dizia era da boca para fora, em seu intimo Amélia se sentia triste e sozinha.
Um dia Amélia apareceu com uma grande noticia: Estava apaixonada, pois, havia encontrado o homem da sua vida, o seu príncipe encantado.
A princípio ninguém acreditou nela. Pensaram até em mandar interna-lá. Ela havia ficado louca. Afinal, achar alguém para chamar de príncipe, ainda mais para ela chamá-lo, com todas as suas exigências e manias era quase que um milagre. Ou loucura. Não que não acreditassem em milagres, mas, preferiram acreditar em loucura. Amélia estava louca.
Aos poucos o que parecia um delírio foi se tornando realidade. Amélia definitivamente encontrara o amor. E para provar isso, marcou um jantar com toda a família e amigos.
Todas estavam ansiosas para ver e conhecer seu príncipe encantado. Algumas diziam que ele deveria estar à beira da morte, outras que ele, deveria ser terrivelmente feio. Teve até quem achara que ele era gay e ela teria um casamento de aparências.
No dia do jantar todas estavam lá e preparadas para rirem de Amélia e ver seu príncipe da forma que ele realmente seria: Um sapo.
Más línguas. Más amigas. Invejosas. Incomodadas com a felicidade alheia. Não queriam acreditar que Amélia havia tirado a sorte grande e que, diferentemente delas havia encontrado um príncipe de verdade.
 Ele não chegou montado em um cavalo branco, mas, a sua beleza causou uma grande surpresa. A inveja começou, quando viram a sua postura e a sua educação. O “sapo” era um príncipe. Perfeito! O homem que Amélia sempre sonhara. O homem que elas acreditaram não existir. Ou melhor, existir somente na imaginação de Amélia.
Amélia tirara a sorte grande. Enfim, seria a rainha do seu lar, como sempre sonhara. Naquele dia, nenhuma de suas amigas conseguiu dormir, tamanha inveja que sentiam.
Dias depois; o casamento. Amélia, enfim, se tornara a rainha que tanto sonhara.
“Que inveja”. – pensavam as amigas – “Que inveja”.
Aquele fora o dia mais feliz de Amélia até então. E o dia mais difícil para suas amigas. O dia em que tiveram que aceitar que Amélia sempre tivera razão. Sempre estivera certa e elas... E elas... Corroíam-se por dentro...
Dias depois, querendo presenciar a vida de rainha que Amélia estaria vivendo, suas amigas se reuniram e foram visitá-la. Ansiosas para verem a Rainha que ela se tornara. Foram sem avisar, afinal era sábado à tarde, e quem sai aos sábados à tarde? Com certeza Amélia estaria em seu castelo com seu rei.
Então, aproveitando-se que seus “príncipes” saíram para jogar futebol foram elas, visitar a “rainha Amélia”.
Ao chegar à casa de Amélia, a surpresa: não havia castelo, não havia rainha. O rei havia saído fora jogar futebol com os amigos enquanto a “rainha” passava uma enorme pilha de roupas. E, o que era pior, Amélia em nada se parecia com a Amélia que estavam acostumadas ver. Ela estava com as unhas por fazer, os cabelos, que cuidava com grande esmero, chegando a gastar fortunas para mantê-lo sempre maravilhoso, aparentemente quebradiço, sem vida. Amélia tentou disfarçar, mas era tarde demais. O castelo, de areia, havia desmoronado.
Nesse momento suas amigas foram acometidas por um grande sentimento de: Felicidade. A inveja se foi. Aquele sentimento mesquinho que sentiam se dissipou. Não havia mais rainhas ou plebéias. Não havia mais conto de fadas, agora era a vida real. E se sentiram feliz por isso, mas, com uma pontinha de tristeza, afinal eram amigas de Amélia e a amavam.
A tarde foi maravilhosa, feliz. Tão feliz que até combinaram de se reunirem na próxima semana.
Ao deixarem à casa de Amélia, suas amigas, não puderam se conter, e, felizes, foram embora cantando: “Amélia não tinha a menor vaidade. Amélia que era mulher de verdade...”.

A amiga merecia essa homenagem.

Marc Souza